Morbidez é doença do século 21
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 2008
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Suicídios, abuso de álcool e drogas e a tendência à autodestruição são consequências de uma doença que atinge crianças e jovens cada vez mais precocemente. Chamado de morbidez, esse mal é causado por um conjunto de fatores que inclui a pressão social pelo enquadramento em parâmetros irreais e, principalmente, a falta de pais e educadores comprometidos com a criação de vínculos afetivos com as crianças.
Em constante busca pelo prazer, os pais acabam terceirizando os cuidados com os filhos para a TV, jogos eletrônicos, computadores e babás, estimulando a virtualização das relações e comprometendo o pleno desenvolvimento emocional. O assunto foi abordado pelo psicoterapeuta Ivan Capelatto, de Campinas, em palestras proferidas em Ibiporã e Apucarana na semana passada. ''Como pensar em educação e relacionamentos no século 21: pais, filhos, educadores e a sociedade atual'' foi o tema das discussões. Em Ibiporã, o evento foi promovido pela empresa Vita Consultoria e Desenvolvimento Humano, especializada em questões educacionais.
Confira os principais trechos da entrevista, durante visita do psicoterapeuta à FOLHA anteontem:
Descrença e morbidez
Hoje temos índices de suicídios e de uso de álcool e drogas muito altos no mundo e principalmente no Brasil. As pessoas estão sequestradas pelo ''ter que''. Tem que ter um corpo jovem, ser bonito, usar determinado tipo de roupa, não usar óculos, ter o peito de determinado formato, o pênis de determinado tamanho. Diante de tantas exigências, começamos a descrer que fomos feito para viver. É nesse ponto que surge uma doença grave que induz à droga, ao suicídio, à aventura que leva muito perto da morte. É a doença chamada morbidez. Quando alguma coisa não dá certo, a criança normal fica com raiva e agride o outro. O mórbido agride o outro e agride a si mesmo.
Limites
São formas de contrato que os pais têm com os filhos. Funciona assim: a criança pergunta ''por que eu tenho que tomar banho agora?'' e o pai responde: ''porque eu quero''. E aí o menino vai tomar banho, mesmo xingando, e percebe que é capaz de se frustrar. E no futuro será capaz de perder o namorado sem se matar ou comer um quilo de bolo. A orientação é que os pais tentem suportar a raiva dos filhos, pois quando a criança sente que o adulto suporta a raiva, passa a achar que não é uma criança má e consegue suportar a raiva também. E aí a morbidez desaparece.
Professores
A dificuldade de educar é a dificuldade de encontrar educadores. A escola acha que a educação pertence à família e, no meio disso tudo, fica a criança solitária. O professor não precisa dar só educação formal, porque a existência do professor afeta a criança, então existe uma relação afetiva. A criança quer que o professor chegue perto, que toque, que corrija o caderno. A demanda da criança por cuidados dirige-se a qualquer adulto que conviva com elas. A mágica da vida é justamente a possibilidade de o mais experiente cuidar do que está vindo, independentemente de ser professor, avô, tio ou pai.
Consumismo
O incentivo ao consumo não tem importância quando, dentro de casa, houver um pai ou mãe dizendo ''agora não''. ''Posso ter esse brinquedo?'' ''Pode, no dia do seu aniversário''. É para isso que existem as datas. Somos uma sociedade industrial, as propagandas são inofensivas quando em casa se dá o limite. O que acontece muito é que o bem material é oferecido no lugar do afeto. É assim que criamos monstros.
Trabalho e cuidado dos filhos
Às vezes o tempo que sobra aos pais que trabalham é a noite. Quem tem filho não tem descanso, por isso, tenho pedido aos pais que, ao chegarem em casa, vejam a lição, sentem com o adolescente no quarto, conversem sem dar conselhos. Dêem limites, aguentem a raiva, mas evitem a ausência que já ocorreu durante o dia. Hoje temos muita gente no Conselho Tutelar, sendo judiada sexualmente pelos próprios pais, muita prostituição infantil, pedofilia. Por que se permite isso? Porque alguém não está cuidando.
Violência
Sobre a questão da violência, os pais têm que conversar e esclarecer os filhos sobre os próprios medos. Devem falar sobre o medo de acidente, ladrão, sequestro... Falar sobre o medo não é ruim, o que não pode é aconselhar os filhos em nome do medo, porque assim passa-se a eles o medo dos pais. O pai tem que dizer ''não quero que você vá porque eu tenho medo''. E protegê-los.
Desejo paradoxal
Quando a criança pede alguma coisa, os pais devem dizer sim ou não, sem muitas justificativas. O ''sim'' com restrições é um convite para o filho forçar o pai a aumentar o cuidado sobre ele. Já o ''não'' com justificativa aumenta a raiva. Por isso, ''sim'' e ''não'' devem vir com ponto final. Cabe aos pais assumir os riscos da permissão ou lidar com a frustração causada pela negação.


