Depois de anos lutando pelo asfaltamento do Jardim dos Campos, antigo assentamento na Zona Norte de Londrina, a dona-de-casa Maria do Carmo Brito dos Santos, 40 anos, agora vê a conquista tornar-se um problema. Presidente da Associação de Moradores do bairro, ela foi informada anteontem que sua casa terá que ser demolida para dar lugar a uma rua. ''Daqui não saio, pode escrever aí'', avisou.
Funcionários da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) já iniciaram o trabalho de topografia na área, que finalmente deverá ser regularizada. A residência de Maria do Carmo fica numa ''esquina'' do assentamento e seria atingida em cheio pela rua, conforme medições preliminares feitas pelos topógrafos. Na mesma situação está a casa de Eliana Cristina Franklin, 39 anos, localizada aos fundos do imóvel da vizinha.
''Os outros moradores (da futura rua) não estão reclamando porque as casas deles estão bem no meio do caminho, então eles já sabiam que teriam de sair. Mas para nós sempre disseram que não seria preciso. Foi propaganda enganosa'', reclamou Eliana.
Moradora mais antiga do assentamento, a presidente da associação invadiu a área há quase 12 anos e conseguiu construir uma casa de alvenaria com seis cômodos. ''Cada tijolinho que tem aqui foi um morador amigo que ajudou a colocar'', afirmou. A Cohab diz que, caso sua residência tenha mesmo que ser removida, ela poderá ser transferida para um conjunto habitacional em fase de construção, próximo da atual moradia. ''Só que são casinhas de 28 metros quadrados, e nós somos em cinco na família. Por que eles não deixam nossa casa quieta e dão a do conjunto para quem está em situação mais precária?''
As moradoras sugerem que, para urbanizar a via, o Município utilize parte de um terreno do outro lado da rua. Segundo elas, a área é usada pelos próprios moradores para cultivo de uma horta comunitária, mas não possui nenhuma espécie nativa que precise ser poupada. Maria do Carmo não sabe, contudo, se a área é pública ou particular.
O presidente da Cohab, Carlos Eduardo Afonseca e Silva, disse ontem que também não tinha essa informação. Caso o terreno seja privado, o poder público teria que bancar uma desapropriação para usar parte dele. ''Ficaria muito mais caro'', adiantou, acrescentando que seria necessário avaliar se as árvores que existem ali podem ser cortadas. ''Não queremos atrapalhar o lado do ser humano, mas não podemos esquecer a questão ambiental.''
Silva disse que a remoção das duas casas ainda não é questão fechada e que irá discuti-la em reunião com os moradores. ''Em assentamentos isso é comum: as pessoas não fazem a medição adequada das áreas e as casas de esquina acabam tendo esse tipo de problema. O assunto vai ser discutido com a comunidade, pois os interesses coletivos têm que prevalecer'', enfatizou.

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