Quase dois meses após a interdição da avenida Dez de Dezembro, no sentido norte-sul, em Londrina, os moradores das ruas incluídas nas rotas de desvios tentam se adaptar às mudanças. O bloqueio de uma das pistas da avenida foi necessário para a continuidade das obras de construção do viaduto no cruzamento da Dez de Dezembro com a Leste-Oeste, inicialmente previstas para durarem 15 meses. A população demonstra paciência para lidar com o aumento do fluxo de veículos em alguns bairros, como vila Casoni (região central) e vila Fraternidade (zona leste), mas no centro os transtornos são mais sentidos.

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. | Foto: Gustavo Carneiro


Para os funcionários e pais de alunos do CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) Professor Water Okano, ao lado do Terminal Rodoviário, as obras do viaduto geraram pelo menos dois grandes transtornos. O primeiro deles foi a mudança do ponto de ônibus. Até o início da obra, o ponto ficava na rua Amadeo Mortari, a poucos metros do portão da instituição de ensino, e tinha cobertura e bancos. Agora, o ponto foi transferido para a rua Potiguares, próximo ao cruzamento com a Dez de Dezembro e é do tipo palito, sem nenhuma proteção ou conforto.


“Os pais e os funcionários que utilizam o transporte coletivo têm que atravessar a rua Potiguares, onde os motoristas não respeitam a faixa de pedestres, e andar até lá embaixo. Algumas mães têm mais de um filho na creche e têm que vir carregando as crianças, as mochilas, é horrível”, disse a agente operacional do CMEI Gislaine Fernandes Matias. Além do risco de atropelamento, conta ela, há o risco de assalto. Em frente à instituição há uma praça bastante frequentada por usuários de drogas. “É muito perigoso”, comentou a funcionária.


Outra dificuldade que já existia, mas foi agravada com o início do bloqueio de uma das pistas da avenida Dez de Dezembro, é a falta de um estacionamento ou área reservada a embarque e desembarque próximo ao portão de entrada do CMEI. “O estacionamento é longe (na avenida Jorge Casoni) e a hora de chegada e de saída dos alunos, às 7h30 e às 17 horas, também é o horário de maior movimento no trânsito. Os motoristas não respeitam”, afirmou a diretora da unidade, Camila Tonon Benicio. No CMEI estão matriculados cerca de 170 alunos com idades entre zero e cinco anos. “São pequenos, muitos precisam de colo.”


A diretora lembrou que já foi feito um abaixo-assinado para que seja construída uma área de estacionamento mais perto da instituição, mas a informação que recebeu da prefeitura é de que o projeto só seria executado após o término das obras do viaduto.



Rua Uruguai

materia sobre transito pesado na rua uruguai - fotos: gustavo carneiro - folha de londrina - 15/04/19
materia sobre transito pesado na rua uruguai - fotos: gustavo carneiro - folha de londrina - 15/04/19 | Foto: Gustavo Carneiro


No centro de Londrina, a rua Uruguai foi uma das mais prejudicadas pelas mudanças no tráfego. A rua sempre teve movimento intenso nos finais de tarde por ser uma importante via de ligação da avenida Leste-Oeste com a avenida Juscelino Kubitschek, mas com os desvios na Dez de Dezembro tem recebido um fluxo de veículos ainda maior.

“O trânsito aqui na rua está horrível. O motorista de Londrina é egoísta, só pensa nele e não quer saber se vai bloquear os cruzamentos. Fora as colisões traseiras, que aumentaram muito”, reclamou o comerciante Uzier de Carvalho, que há 35 anos tem uma loja de artigos para decoração no início da rua Uruguai. “Eu comecei a fechar a loja mais cedo, às 17 horas, por causa desse trânsito infernal. Melhorou com os semáforos que instalaram (nos cruzamentos com as ruas Pará e Goiás), mas ainda está difícil.”



'A gente tem que aceitar essas mudanças'
Há seis meses, a auxiliar de cozinha Elaine Matieli mudou da vila Casoni para a vila Fraternidade, na zona leste de Londrina. O novo endereço fica na rua Santa Elisa, uma via relativamente tranquila do bairro. Quatro meses após a mudança, no entanto, ela viu o tráfego de veículos em frente a casa dela aumentar consideravelmente nos horários de pico, principalmente no final da tarde. A rua é um dos desvios possíveis para quem precisa cruzar a avenida Dez de Dezembro e seguir pela Via Expressa no sentido norte-sul.


“Se a gente precisar sair com o carro, não consegue por causa do movimento. Fora os buracos, que aumentaram muito. Era uma rua sossegada. Virou um terror. Está complicado o trânsito aqui”, reclama Matieli. Ela reconhece o trabalho feito pela CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), que tem atuado constantemente na fiscalização, mas ressalta que os agentes de trânsito não estão por perto o tempo todo. “Quando eles vêm, multam até quem estacionou o carro na contramão.”

Transtorno temporário
Algumas vias da vila Casoni também servem como desvio para os motoristas que se deslocam da zona norte em direção ao centro. Na rua Tapajós, por exemplo, o fluxo de veículos aumentou bastante, mas os moradores se mostram conformados com as alterações viárias porque sabem que é um transtorno temporário.


“O pior ponto é no cruzamento com a rua Guaranis. Já era ruim e agora está pior. É um cruzamento perigoso e vira e mexe acontece um acidente. E ainda passa ônibus por aqui, eles correm bastante”, comentou Débora Santos, proprietária de uma bicicletaria. Mas ela também vê vantagens no aumento do número de veículos circulando na via. “É mais gente passando por aqui e mais gente vendo o meu estabelecimento comercial. Não sei se foi coincidência, mas o movimento na bicicletaria melhorou”, contou a comerciante.


“Faz mais de 20 anos que moro aqui nessa casa (na rua Tapajós). Sempre teve movimento e agora ficou mais intenso, ficou mais difícil para atravessar nos cruzamentos, mas não foi tanto assim. Não tem congestionamento nem nos horários de maior movimento”, disse o aposentado Vantuil Tardin.

Vantuil Tardin: "Não tem congestionamento"
Vantuil Tardin: "Não tem congestionamento" | Foto: Saulo Ohara

O aposentado José Aparecido Parra Martins passa boa parte do dia conversando com o dono de uma farmácia na vila Casoni. Os amigos viram o movimento de veículos aumentar na região nos últimos dois meses, especialmente nos dias de semana, entre as 17h30 e 18h30, mas afirmam que é preciso ter paciência porque a obra trará melhorias para a cidade. “A gente tem que aceitar essas mudanças. Elas são passageiras e depois vai melhorar. É para o bem da cidade”, comentou Martins. “Não dá para reclamar dessas mudanças no trânsito. Afetou um pouco o trânsito, mas não afetou tanto assim. Dá para aguentar. É só por alguns meses”, acrescentou Magri.



CMTU monitora alterações
Por meio de sua assessoria de imprensa, a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) respondeu que as mudanças viárias planejadas em função das obras de construção do viaduto da avenida Dez de Dezembro estão sem monitoradas com a finalidade de saber se as alterações estão funcionando de acordo com o esperado. Além da companhia de trânsito, o acompanhamento é feito também pela secretaria municipal de Obras e Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina).


A CMTU disse que irá avaliar as reclamações feitas à reportagem e cada caso será analisado. Mas a companhia pediu compreensão à população e ressaltou que as mudanças são temporárias e devem ser revertidas após o término das obras.


Sobre o ponto de ônibus próximo ao CMEI Professor Water Okano, a CMTU informou que o ponto palito instalado na rua Potiguares será substituído ainda nesta semana por um modelo com cobertura e banco. Já a possibilidade de transferência de local será avaliada.


A diretora de Trânsito e Sistema Viário do Ippul, Denise Ziober, disse que a solicitação do CMEI para construção de uma área de estacionamento próxima à instituição foi feita por meio do Ministério Público e que o instituto respondeu à promotoria ser inviável. “O município tem que garantir as vagas de embarque e desembarque e a CMTU fez na avenida Jorge Casoni. Eles (direção da creche) querem poder entrar de carro naquela calçada, mas ali tem rampa para cadeirante e fica em frente à faixa de pedestre. A área reservada pela CMTU fica na mesma quadra do CMEI, no fundo”, destacou Ziober. “ A prefeitura procurou atender da forma que deu, sem oferecer risco a ninguém. Nós atendemos à solicitação do CMEI, mas não da forma como querem.”

A diretora do Ippul adiantou ainda que está prevista a construção de uma baia para embarque e desembarque na rua Potiguares, mas por conta das mudanças viárias o projeto só será executado após a conclusão das obras do viaduto. “As pessoas estão impacientes, mas toda obra traz transtornos e não podemos criar outros transtornos em função disso.”

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