Declarações de moradores e agentes de endemia que vivenciam o combate diário contra a dengue confirmam o que os números da pesquisa apontam: os londrinenses têm informação, mas muitos não fazem o dever de casa por desleixo ou por subestimar o risco da doença.
Como explicar, por exemplo, que os proprietários de uma lanchonete na Vila Portuguesa (Área Central) tenham mantido uma caixa d'água cheia de pulpas do Aedes aegypt um dia depois de ouvirem as recomendações da equipe de saúde? ''Foi um pouquinho de descuido e também que a gente está tentando organizar tudo por aqui, tem muita coisa no terreno'', tentou justificar um morador.
A reportagem da FOLHA não encontrou ninguém que alegasse ignorância sobre os cuidados com a dengue. Compromissos do dia-a-dia e problemas de saúde são algumas das explicações mais comuns. ''Eu tinha trazido umas mudas de flor e larguei na água, mas ficou só uns 15 dias. Há muito tempo que eu ouço que não pode deixar água parada, mas naqueles dias eu estava muito ruim da coluna'', diz uma aposentada, também moradora da Vila Portuguesa.
Depois que uma equipe de campo da Secretaria Municipal de Saúde descobriu vários focos de dengue em sua residência, há cerca de 20 dias, ela despertou para o perigo e deixou tudo em ordem. Mas nem sempre é tão ''fácil'' assim. A agente de endemias Jane Guimarães Silva afirma que já deparou com casos de pessoas que insistem no erro simplesmente porque menosprezam a doença. ''A gente explica sobre a dengue e a pessoa diz que aquilo não é nada, que bebe a larva com água''.
Outros sequer acreditam na existência da doença. ''Um senhor me parou na rua dia desses e falou que a dengue é uma invenção do governo para tirar dinheiro do povo, que o nosso trabalho deveria ser voluntário. Você até desanima'', confidencia a coordenadora da equipe de agentes na Área Central, Vilma Rodrigues de Macedo.
Com campanhas educativas disponíveis em rádio e televisão, outdoors, cartazes afixados em órgãos públicos, mensagens e folhetos distribuídos pelos agentes, a falta de informação sobre a dengue dificilmente é desculpa, mesmo nos cantos mais pobres da cidade. A dona-de-casa Selma Rocha, 38 anos, é um exemplo. Moradora da favela Cantinho do Céu, na região central, Selma foi visitada pelas agentes ontem e não teve nenhum foco do Aedes encontrado em sua casa humilde.
''Não tenho muito estudo, mas tenho uma televisão que todo dia fala sobre a dengue. Diariamente olho pela casa toda para ver se tem água parada e viro os tambores de boca para baixo'', comentou. Pena que nem todos os vizinhos fazem o mesmo. ''Tem uns que descuidam. Mas a gente tem medo de falar alguma coisa e eles ficarem bravos.''

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