Moradores reclamam de mau cheiro
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segunda-feira, 21 de junho de 2004
Elton Hubner<br>Especial para a Folha 
Depois de se aposentar, cinco anos atrás, Amália Martins optou pela vida no campo. Saiu da cidade para ir morar, com o marido, um filho e dois netos, em uma chácara no Patrimônio Três Bocas, Zona Sul de Londrina. Longe da poluição típica dos centros urbanos, Amália, hoje com 60 anos, encontrou outro problema. ''Estraga o apetite, causa nojo. Quando cheguei aqui, já tinha, mas piorou mesmo faz uns dois anos'', conta Amália, referindo-se ao mau cheiro exalado de uma usina produtora de adubo orgânico.
Incomodados com o odor, moradores da vizinhança entregaram ontem à Promotoria de Defesa do Meio Ambiente um abaixo-assinado pedindo providências para diminuir o mau cheiro da fábrica. ''Além de incomodar, atrai animais, como aves, ratos e cachorros'', conta o presidente do Conselho de Desenvolvimento Rural, Marco Aurélio Carvalho. A promotora Solange Vicentin disse que irá instaurar um procedimento investigatório, solicitando ao Instituto Ambientalista do Paraná (IAP) um estudo técnico das condições da usina.
A empresa foi instalada há 12 anos no local, mas existe há 53 anos. De acordo com o proprietário Edson Nunes da Silva, é impossível evitar o odor. ''O cheiro é do material que chega; não do meu produto'', justifica. Para produzir 300 toneladas de adubo por mês, a usina recebe cerca de 500 toneladas de matéria-prima, geralmente vindos de frigoríficos, mercados, curtumes e matadores avícolas.
Silva não se conforma com as reclamações: ''Eu gero empregos, pago impostos, crio um produto de ótima qualidade e limpo a cidade. Se esses produtos não viessem pra cá, iriam para o lixão'', defende-se. Além disso, ele afirma possuir declarações por escrito de vizinhos mais próximos que não se incomodam com a a usina.
A reportagem conversou com produtor de mandioca Valter Maciel de Souza, que vive com mais três pessoas ao lado da fábrica, e disse não se incomodar com o odor. Ele preferiu não participar do abaixo-assinado. ''A gente já se acostumou (com o odor).''
Na usina, há montes de restos animais e vegetais armazenados a céu aberto, rodeados por garças e um muro em construção. Para o ambientalista Álvaro Guise, que presta consultoria para a fábrica, a presença dos pássaros é um indicativo de que, ecologicamente, tudo está em ordem. ''Na usina, é feita a compostagem dos restos orgânicos, o que evita a putrefação. Se não fosse feito esse tratamento de decomposição com fermentação, haveria urubus e insetos; não garças.'' Segundo o empresário, sua empresa é monitorada constantemente pelo IAP.


