Milton DóriaQualidade de vidaFamílias vão usufruir da estrutura que já conta com posto de saúde e escola de 1º grau até 8ª sérieAs 37 famílias que integram o projeto Vila Rural em Cambé receberam, na manhã de ontem, as chaves das casas da vila rural João Inocente. As obras começaram há cinco meses e as casas foram concluídas há 10 dias. A última semana foi dedicada à limpeza dos terrenos, das casas e ao começo da mudança. Nesta semana, crianças e mulheres se dedicavam a limpar e organizar os últimos detalhes. Cada um dos lotes tem 5 mil metros quadrados de área e uma casa de 44 metros quadrados, construída em forma de ‘‘L’’, sem divisões internas.
‘‘Para a gente, vai ser uma bênção voltar para o campo. Nós sempre vivemos da agricultura e estava muito difícil ficar na cidade’’, disse Cleuza Bueno dos santos, 28 anos. Com duas filhas pequenas, ela e o marido estavam dividindo a casa com a sogra dela, em Cambé. Recentemente o marido conseguiu emprego em uma empresa de Londrina, mas Cleuza acredita que, em pouco tempo, os dois poderão viver só do cultivo dos 5 mil metros quadrados do lote da Vila Rural.
Os planos da família Santos já estão definidos: uma horta, criação pequena e pomar para garantir o alimento. No resto do terreno, cerca de três mil metros quadrados, eles querem plantar café adensado. ‘‘Já trabalhamos como meeiros muito tempo e sabemos que podemos tirar nosso sustento daqui’’, acredita. O salário bruto do marido, diz, é de R$ 250,00.
O trabalhador rural Joaquim Vieira da Silva, 53 anos, não partilha da mesma confiança de Cleusa dos Santos. Com sete filhos, desde os 8 anos de idade ele trabalhou em sítios da região, ‘‘ora como tratorista, ora na enxada’’ e diz que ainda não será desta vez que vai poder abandonar o trabalho volante. ‘‘Estou muito contente em ter conseguido entrar na Vila Rural. Pelo menos vou poder garantir o básico para a família, mas a terra é pouca para tanta mão trabalhar e enquanto a mulher e os filhos dão conta daqui, eu vou para onde aparecer trabalho’’, diz.
O sonho do Pedro Mendes de Souza, 48 anos, é viver com o produto de sua própria horta. ‘‘Dá para ganhar a vida com uma horta bem cuidada’’, garante. Ele já tem experiência na área - possuía uma horta no sítio onde trabalhava e vendia sua produção na cidade. Mesmo assim, ele vai ter de esperar para realizar seu sonho. A bomba do poço artesiano da Vila Rural não tem potência suficiente para abastecer a demanda de hortas tão grandes e a comunidade vai ter de custear sozinha a troca da bomba se quiser investir nesse tipo de cultura.
Viver com qualidade e ainda garantir uma sobra na produção para comercializar é situação garantida pela própria Emater, um dos órgãos que dão assessoria ao projeto. O técnico agrícola da Emater, Romeu de Souza, explica que o órgão vem discutindo as possibilidades de produção diversificada com as famílias e vai estar orientando, individualmente, cada uma delas em seus projetos. O projeto básico já definido pelos próprios moradores prevê uma pequena horta na frente das casas, um pomar com cítricos na lateral e também aproveitamento de 500 metros quadrados do terreno para o plantio de arroz de sequeiro.
Com o projeto as famílias, poderiam colher cerca de cinco sacos de 50 quilos de arroz por ano. A horta o pomar e uma pequena criação garantiriam o complemento alimentar. Souza deixa claro, no entanto, que somente alguns tipos de produção poderiam garantir a subsistência das famílias. ‘‘Vamos estar mostrando os prós e contras de cada cultura e oferecendo todo apoio técnico, mas a decisão final é das famílias.’
A vila rural João Inocente, assim chamada em homenagem a um pioneiro e ex-expedicionário, foi construída perto da comunidade Quilômetro Nove. As famílias vão usufruir da estrutura desta comunidade, que já conta com posto de saúde e escola de 1º grau até 8ª série. A Prefeitura de Cambé já providenciou as vagas e as crianças das famílias da Vila Rural têm vaga garantida na escola. Os que estão no 2º grau terão transporte gratuito para a cidade.
Das 37 famílias atendidas pelo projeto, em Cambé, 21 são de lavradores, 11 de bóias-frias e cinco de pessoas com profissões diversas. Cada família vai pagar uma mensalidade de R$ 20,00. ‘‘Temos uma comissão que vai estar acompanhando todo o processo de adaptação destas famílias e procurando resolver os problemas, na medida em que forem surgindo’’, afirma a assistente social Nilsa Morales Oliver.

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