''Não sei se moro lá ou se moro cá.'' A frase, paradoxal, é recorrente na boca de moradores do assentamento Campos Verdes, divisa de Cambé com Londrina. Por diferença de uma rua eles pertencem ao município vizinho, se sentem londrinenses e se dividem ao usufruir de serviços públicos, como escolas, unidades de saúde e até assistência social. De acordo com a Companhia de Habitação (Cohab) de Londrina, a área é de Cambé e abriga cerca de 200 famílias, que desde 2002 já recebem água e luz, mas ainda não têm a documentação do imóvel regularizada.
João Batista Teles de Aquino, 37 anos cinco deles morando no assentamento , sabe que não reside no Jardim João Turquino (Zona Oeste de Londrina) mas preferia que fosse assim. ''Minha mulher precisa de tratamento para uma doença que tem na perna e tenho que pagar dois ônibus para ir até o posto do Novo Bandeirantes'', explica. Isto porque a Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Maracanã, a pouco mais de um quilômetro da casa dele, só pode atender munícipes de Londrina.
De acordo com o diretor da Secretaria de Saúde de Londrina, Marcelo Viana, a orientação é que os pacientes procurem a unidade referente ao endereço residencial. Neste caso, a Prefeitura de Cambé deve se responsabilizar pelo atendimento à família de Aquino, já que ela mora naquele município.
Aquino é pai de quatro filhos, o mais novo com oito anos e o mais velho com 12. Ele tem medo que a escola do bairro londrinense resolva adotar a mesma postura da UBS. ''Deu o que fazer para conseguir matricular o mais velho. Eu acho que logo eles vão proibir também'', afirma desolado. Entre as crianças a confusão também acontece. Kézia Aquino, 9 anos, garante que mora em Londrina, enquanto o irmão, Jessé, um ano mais novo, diz que é de Cambé.
Para Rosângela Marcílio, 21 anos, a confusão também é diária. ''Eu moro em Cambé, mas normalmente também moro em Londrina'', tenta explicar. Ela tem um filho, Lucas Aparecido Napoleão, de três anos, que faz tratamento de saúde semanal. ''Para a papelada médica do Lucas ser de Londrina, acabo usando o endereço da minha mãe, no Jardim Maracanã (Zona Oeste), onde eu morava até pouco tempo atrás.'' Segundo ela, essa medida faz com que tenha de caminhar menos com a criança para ser atendida. ''Bem dizer eu vivo mais na casa da minha mãe, porque tenho que ficar lá para levar o menino no médico'', justifica.
Também carregando a filha de dois anos no carrinho de bebê, Lidimara Costa Antunes Valvassori costuma subir a pé mais de um quilômetro da rua de terra que divide os dois bairros. ''É uma confusão só. Eu tenho que sair daqui e andar tudo isso se quiser levar um dos meus filhos ao médico'', reclama. Da casa dela à UBS do Jardim Novo Bandeirantes a distância é de cerca de cinco quilômetros. ''Esses dias um menino passou mal na minha rua e a mãe teve que ir a pé até lá. Isso é justo?''
Viana, da secretaria da Sa© úde, afirma que em casos emergenciais os funcionários da UBS são orientados a atender. Ele ressalva que, em alguns casos, pode acontecer do médico especialista não estar disponível e o paciente ser orientado a procurar outra unidade. Ele disse ainda que irá pedir aos funcionários da UBS que façam um levantamento da demanda de pacientes do assentamento para estudar medidas mais confortáveis aos casos extremos. ''Teria uma terceira possibilidade que é o atendimento emergencial na unidade do Jardim Leonor, que funciona 24 horas'', acrescenta.

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