Londrina

Mário CésarProtestoMoradores fecharam a rua ontem: água contaminada põe em risco a saúde de crianças e idososA Secretaria Municipal de Obras começou ontem à tarde a fazer a delimitação do fundo de vale em uma área invadida por famílias sem-teto entre os conjuntos Ilda Mandarino e Parigot de Souza 3 (zona norte). A determinação é do prefeito em exercício Adalberto Pereira (PFL), depois de ter sido pressionado pelos moradores dos cerca de 60 barracos encravados nos dois lados das margens do Ribeirão Lindóia. Eles interditaram ontem pela manhã, com galhos de árvore e entulhos, vários pontos da avenida Francisco Gabriel Arruda, um dos principais acessos para a região conhecida como Cinco Conjuntos. Os moradores reivindicavam pelo menos uma torneira comunitária para abastecer os moradores - a grande maioria, crianças - e ameaçavam só desobstruir a rua após uma negociação com a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab) ou com a Sanepar.
A decisão de delimitar a área foi tomada durante reunião, na Prefeitura, entre Adalberto Pereira, o presidente da Cohab, Wilson Mandelli, presidente da Cohab, o secretário municipal de Obras, José Righi, e representantes dos moradores.
A instalação da torneira comunitária está condicionada a não ocupação de área considerada de preservação ambiental. Mandelli explicou que a avaliação topográfica tem por objetivo mostrar se alguma família construiu barraco em área proibida por lei. José Righi acredita que hoje o trabalho esteja concluído. Ele lembra que é considerada fundo de vale a área compreendida entre a margem dos rios ou córregos até a uma distância de 30 metros. Uma das líderes do movimento, Ivani Paulino da Silva, acredita a maioria das famílias estejam fora dos 30 metros de distância.
Grande parte dos moradores chegou àquela área há aproximadamente oito meses. Desde lá vêm tentando, junto à Cohab, a legalização da área, lembra Ivani Paulina da Silva. O músico Pedro Carlos Rodrigues, 33 anos, diz que a falta de água potável é o maior e mais grave problema da comunidade. O recepcionista de hotel José Antonio Rodrigues, 28 anos, promete que os sem-teto vão pagar a ligação e o consumo. As famílias precisam se abastecer da água do Ribeirão Lindóia para beber, cozinhar, tomar banho ou lavar roupa. Segundo muitas mulheres, mesmo fervendo, a água está acarretando problemas de saúde principalmente aos idosos e crianças.
‘‘Meus filhos têm diarréia, manchas no corpo e já está até caindo cabelo deles’’, conta a dona-de-casa Vanderlice Cardoso dos Santos, 23 anos, quatro filhos - o menor com 4 anos e o maior com 12 anos. Ela diz que os problemas aparecem, apesar de ela estar dando água fervida para as crianças. ‘‘O médico do Posto de Saúde falou para eu parar de dar água do córrego para as crianças. Mas aí elas vão beber o quê?’’
O médico também aconselhou a dona-de-casa Elza Júlia de Paula, 31 anos, grávida de sete meses, a parar de usar a água do córrego. ‘‘A água me dá coceira, tontura, diarréia. O médico disse que vai fazer mal para o meu bebê. Mas eu não sei o que fazer’’, diz, desanimada. Rosângela Cristina Alves conta que as fraldas do seu bebê, lavada com água do córrego, provocam alergias na criança.
Márcia Aparecida Teixeira, 25 anos, tem dois filhos e está grávida de oito meses. Todo dia ela desce da sua casa até as margens do córrego para buscar água. E não é sempre que ela ferve antes de beber e servir as crianças. ‘‘Quando dá tempo eu fervo. Se não a gente toma assim mesmo’’, confessa.
Édina Fernandes Berte, 27 anos, conta que já está com reumatismo porque precisa entrar na água gelada do rio para lavar a roupa. Ela diz que, desde que invadiu o terreno, há seis meses, os filhos estão constantemente adoentados.
Apenas a família de Sandra Maria Elias, 29 anos, está em melhor situação. É que o irmão dela, preocupado com a saúde do sobrinho, Odolfo Júnior, 2 anos, traz todos os dias um galão de água potável para a irmã. ‘‘Meu irmão ficou com pena porque o menino começou a ter diarréia e pelotas pelo corpo.’’
A manifestação dos moradores da área invadida não apresentou grandes problemas. O tráfego foi desviado pela rua Lindalva Basseto. O gerente metropolitano da Sanepar em Londrina, Paulo Kishima, avisou que só poderia instalar uma torneira comunitária com autorização do proprietário do terreno, no caso, a Prefeitura - que se comprometeria com o pagamento.

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