Moradores esperam por indenizações
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sexta-feira, 08 de janeiro de 1999
Vânia Moreira 
Os últimos moradores do Arquipélago de Ilha Grande, no Rio Paraná, Noroeste do Estado, aguardam o pagamento das indenizações para deixar as ilhas, transformadas em parque nacional há um ano e meio. São aproximadamente 80 famílias, das quais 58 já têm destino certo: serão transferidas para a vila rural que a prefeitura de Vila Alta (85 km a noroeste de Umuarama) está construindo em parceria com o governo do Estado. As outras famílias ainda não sabem para onde ir. A maioria concorda em se mudar, mas alguns afirmam que só saem das ilhas depois de receber a indenização pelas terras que perderam.
É o caso do aposentado José Rodrigues dos Santos, 62 anos, que vive em Ilha Grande há 28 anos com a mulher, Maria de Lourdes Martins, 48 anos, e cinco filhos. Junto, o casal possui título de posse de 152 hectares. Santos diz que a a mulher e os filhas poderão se mudar para a vila rural, mas ele permanecerá na ilha. Teme deixar a área e perder o direito à indenização. Antes de receber o dinheiro, só saio daqui morto ou algemado, desafia.
Proibidos de pescar, plantar ou criar animais, os ilhéus sobrevivem de aposentadorias ou de cestas básicas doadas pelas prefeituras dos quatro municípios abrangidos pelo parque. As cestas são doadas para as famílias que têm crianças na escola. Enquanto não define a retirada e indenização dos ilhéus, a direção do Parque Nacional de Ilha Grande tolera a criação de galinhas, porcos e algumas cabeças de gado. A pesca está proibida por ser período de reprodução dos peixes, mas o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) permitiu que os moradores pesquem até cinco quilos de peixe por dia, mais um de qualquer espécie, para consumo. É proibida a comercialização.
Os ilhéus reclamam de estarem sendo punidos injustamente pela devastação da reserva ecológica. Morando há 39 anos em Ilha Grande, o aposentado Raimundo Benício de Oliveira, 74 anos, diz que os moradores cultivavam pequenos pedaços de terra. Quem estragou as ilhas foram os pecuaristas que começaram a transformar tudo em pasto, acusa. Dos nove filhos de Raimundo, sete nasceram em Ilha Grande. Todos foram embora, a esposa morreu e Raimundo continuou morando no mesmo lugar.
Dono de 34 hectares, Raimundo conta que já colheu muito arroz, milho, abóbora e melancia. Hoje, ele tem autorização da direção do parque para cultivar 50 metros quadrados em volta da casa, mas planta pouca coisa. Também não tem mais forças para pescar. Raimundo não quer ir embora de Ilha Grande e tem esperança de poder continuar morando a dois metros da margem do Paranazão. Minha aposentadoria de R$ 130 dá para me manter. Não quero destruir nada. Adoro este lugar e gostaria muito de ficar e ajudar a cuidar do parque, diz.
Os problemas e a evasão de moradores das ilhas são anteriores à criação do parque. Até meados dos anos 80, mais de 1.300 famílias viviam no arquipélago. Os problemas começaram com as cheias do Paranazão, que se tornaram constantes depois da construção da hidrelétrica de Itaipu. Quase todo ano, as enchentes destruíam as lavouras e os posseiros começaram a vender os lotes. Atraídos pela terra barata, água e vegetação nativa à vontade, grandes fazendeiros compravam os lotes e transformaram as ilhas em grandes invernadas.
No início da década, já haviam mais de mil cabeças de gado nas ilhas e menos de 200 famílias de posseiros. Os que ficaram, além das enchentes, passaram a ter um problema a mais, comprometendo a agricultura de subsistência. Criados soltos, bois e búfalos invadiam e destruíam as plantações. A criação de gado foi proibida e as ações em defesa da reserva ecológica culminaram na criação do Parque Nacional de Ilha Grande em setembro de 97. São mais de 70 mil hectares e quase 300 ilhas ao longo de 150 quilômetros do Paranazão, entre Icaraíma e Guaíra.


