Doze famílias que construíram suas casas num terreno no Bairro Alto, em Curitiba, estão revoltadas com a entrega de ordens de despejo para duas delas na manhã de anteontem. Os moradores afirmam que foram convidados a morar nos lotes com a condição de cuidar da área, pela qual não teriam que pagar. Moradores - alguns dizem estar no local há 12 anos - reclamam não ter para onde ir e que vão perder suas casas se deixarem o terreno. As famílias afirmam que tentaram negociar com a Sociedade de Socorro aos Necessitados, proprietária da área, mas não houve acordo. A advogada que representa a entidade filantrópica, Maria Ilma Caruzo, diz que a área foi invadida em 1991, ano em que foi feito contrato de comodato com todas as famílias. O terreno foi emprestado, mas o acordo previa que os moradores tinham prazo de 24 meses para comprar o terreno ou sair do local.
Uma das ordens de despejo entregues na quarta-feira foi recebida pela dona de casa Ilda Pires, de 52 anos. Ela - que afirma morar no local há nove anos com outras seis pessoas - diz que tentou comprar o terreno no ano passado, mas a negociação não foi possível porque a Sociedade de Socorro aos Necessitados teria exigido pagamento à vista. ‘‘Eles não querem vender a área para quem já está aqui, mas o terreno foi loteado e começou a ser comercializado há cerca de um ano e meio’’, afirma.
O mecânico Manoel Messias Alves Barbosa, de 36 anos - que diz morar na área há 12 anos - também recebeu a ordem de despejo. Ele e a vizinha têm prazo até terça-feira para deixarem suas casas. Barbosa conta que tentou comprar o terreno em 1994. ‘‘Ficaram de estudar uma proposta de venda e não me deram resposta’’, diz. ‘‘Hoje aparecem com uma ordem de despejo.’’ Ele afirma ter sido convidado a morar na área. ‘‘Disseram que eu poderia construir uma casa, desde que cuidasse do local.’’ Ele diz que assinou o contrato de comodato, em 1991, sem saber do que se tratava. ‘‘Nós fomos pressionados. Disseram que quem não assinasse seria despejado.’’
Segundo a advogada Maria Ilma Caruzo, a área pertence à Sociedade desde 1954, quando foi doada à instituição. ‘‘A Sociedade, que mantém um asilo e uma creche, precisa do dinheiro da venda dos lotes para manter suas atividades assistenciais aos carentes’’, explica.
Ela diz ter procurado as famílias há cerca de três anos para fazer acordos. O contrato de comodato, lembra, é claro quando diz que teriam que deixar a área. ‘‘Também está especificado que casas de alvenaria não poderiam ser construídas, mas apenas casas de madeira, que deveriam ser levadas quando os moradores fossem embora.’’ Maria Ilma diz que os lotes, administrados por uma imobiliária, estão à venda para quem desejar comprá-los. ‘‘Basta ter dinheiro para fazer a negociação pelo preço de mercado e nas mesmas condições em que estão sendo oferecidos para qualquer interessado.’’
Maria Ilma acredita que as famílias agiram de má fé já que, de acordo com ela, sabiam desde 1991 que teriam que sair do terreno quando fosse solicitado. ‘‘Eles não são pobres. Querem bancar os espertos se apropriando do que não lhes pertence’’, afirma.

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