As mais de mil famílias dos jardins Sabará 2 e 3 (Zona Oeste) não têm escola, posto de saúde, centro comunitário ou área de lazer. Acostumado, portanto, à idéia de que uma vida melhor só existe fora dali, os moradores só exigem uma coisa: asfalto.
Já se vão 20 anos de barro, poeira e promessas. Mesmo diante de tão longa espera, cada dia a mais pode fazer uma enorme diferença para quem vive o problema. Como fez para a doméstica Edvanda Macedo Francisco, 48 anos, moradora do Sabará 3. Ela voltava do trabalho, no último dia 6, quando tropeçou e caiu numa valeta de um metro de profundidade resultado de muitas chuvas e nenhum asfalto. Apesar do pânico que se instalou na vizinhança, ninguém arriscou chamar o Siate. ''Ambulância não desce aqui, porque periga não conseguir voltar e aí o paciente morre aqui mesmo'', observa o marido da doméstica, Luis Francisco, 50.
Levada pelos amigos para um hospital, Edvanda constatou que havia fraturado uma perna. Para ela, o prejuízo foi bem além do desconforto de usar gesso por dez dias. ''Tive que parar de trabalhar. Imagine como ficou a situação, com marido desempregado e dois meninos pequenos pra sustentar. Tive de implorar para o médico tirar o gesso'', relata.
Em meio a tanta dificuldade, a família fica indignada quando lembra que, há quase um ano, representantes da prefeitura disseram que os moradores teriam de pagar pelo asfalto. ''Olha bem para isso aqui'', diz Edvanda, mostrando a casa fincada no barro e a velha máquina de costura que se tornou ganha-pão. ''Se eu tiver que pagar, meus filhos não comem!''.
Já o presidente da Associação de Moradores do Sabará 3, Ailton Rabelo dos Santos, 42, afirma que, diante da urgência, muitos moradores se dispuseram a pagar pelo asfalto. Santos diz não compreender por que assentamentos estão ganhando asfalto antes de seu bairro, loteado há tempos. ''Pelo visto a gente ganha mais invadindo do que pagando imposto'', constata.
O presidente acredita que a ''politicagem'' deste ano eleitoral será a última chance de os moradores conseguirem o asfalto. ''Agora é tudo ou nada. Vamos dar uma última chance à prefeitura. Se mostrarem o edital, com o nome da firma que vai asfaltar e tudo mais, damos um tempo. Senão, vamos reunir o pessoal de 400 casas pra fazer o maior protesto desses últimos anos'', ameaça.

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