Marcas de tiros são vistas tanto na escola como no CEI
Marcas de tiros são vistas tanto na escola como no CEI | Foto: Fotos: Saulo Ohara



Os moradores do Jardim Novo Amparo (zona norte de Londrina) estão vivendo sob o domínio do medo desde novembro de 2016, quando um conflito que a polícia acredita ser entre dois grupos de traficantes rivais se agravou e resultou em tiroteios e homicídios. Neste ano, no dia 16, depois de ver a Unidade Básica de Saúde (UBS) fechar por causa da insegurança, a população agora também é prejudicada na educação. O ano letivo da rede municipal começou nesta quinta-feira (26) em todas as escolas municipais, menos nas duas instituições do bairro. O início das aulas no bairro está previsto para o dia 30.
O pai de uma aluna da escola municipal relatou que o cotidiano foi totalmente modificado. "As pessoas não saem mais às ruas. Ficam em casa, com medo. Não tem como as crianças estudarem dessa forma", destacou. Outro morador contou que o seu filho começa a gritar ao escutar qualquer barulho. "É tiro! É tiro!", relatou.
"Tudo está tenso, o bairro está todo parado. Ninguém anda na rua, ninguém vai para o bairro vizinho. As pessoas deixam de fazer compras no mercado para preservar a vida", apontou uma funcionária do centro de educação infantil (CEI).
Entre os funcionários do CEI, com mais de 20 anos de casa, há o consenso de que a violência no bairro nunca havia chegado a este nível, com a utilização de armas de grosso calibre e automáticas. Nas duas escolas são visíveis os resultados do conflito entre os grupos rivais. Nas paredes do CEI, que foi alvo de mais de 10 disparos no último fim de semana, é possível ver as marcas dos tiros. No muro da escola municipal também há sinais de tiros.

MUDANÇA
As atividades na Escola Municipal Elias Kauam já haviam sido suspensas no início de dezembro de 2016 devido à violência. Os professores foram transferidos para a escola localizada no Conjunto Farid Libos, também na zona norte. "Passamos atividades para os alunos realizarem em casa. Só retornamos no dia 16 de dezembro para entregar a avaliação dos alunos, os boletins", relatou uma servidora. Depois de um breve período de calmaria, quando os funcionários da escola acharam que a situação estava tranquila, houve novo tiroteio.
A secretária municipal de Educação, Maria Tereza Paschoal de Moraes, informou que metade dos 40 professores do Novo Amparo solicitou transferência e 20 famílias pediram para que seus filhos fossem matriculados no bairro vizinho, no Farid Libos. "Isso equivale a 10% dos 200 alunos matriculados. Os professores também ficaram com muito medo", apontou. Houve quem solicitasse que a escola fosse fechada e toda a equipe fosse transferida para outro bairro, sugestão que foi rejeitada pela comunidade.
Segundo Maria Tereza, os professores não têm como pedir a remoção da escola. "Na pior das hipóteses, eles podem pedir a exoneração do cargo. Foi feito um trabalho de convencimento para que eles retornassem e assim que eles viram a polícia, resolveram voltar ao trabalho normalmente", relatou. Um móvel módulo da Polícia Militar foi instalado no bairro na quarta-feira (25). Na quinta, o móvel estava em frente à escola. A expectativa é que as aulas tanto no CEI quanto na escola municipal comecem na próxima segunda-feira (30).
De acordo com a secretária, não há como fazer barreiras arquitetônicas para garantir a segurança dos professores e alunos, pois a questão transcende os muros escolares. "O problema não é só a escola, é o trânsito dos alunos e professores pelas ruas do bairro. É preciso que a polícia faça a parte dela e garanta a segurança no bairro."
O presidente da Associação de Moradores do Novo Amparo, Flávio Alves Folgado, destacou que a suspensão do início das aulas preocupa e criticou a sugestão de transferência da equipe escolar para outro bairro. Segundo ele, se a comunidade do bairro deixar a escola "ir embora", logo depois vai acontecer com o CEI, em seguida com a UBS. "A solução não é sair do bairro. É preciso enfrentar o problema. Fugir é correr da obrigação."

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