Para quem tem pouco, ou quase nada, barracão de zinco, sem telhado, sem pintura é bangalô. Que bom seria se não precisássemos cobrir o rosto de um problema social com poesia, passando incólumes às desigualdades.
Antes de continuarmos a matéria, vamos abrir parênteses para perguntar qual o conceito de casa para o leitor? Alguns podem, simplesmente, responder que é o lugar onde moram. Outros traçam um conceito mais profundo, relacionando a moradia ao lar.
Reinaldo Pereira, 25 anos, agora tem uma casa onde a vizinhança o ajuda e se preocupa em saber se está precisando de alguma coisa como mandam as relações e a cordialidade hoje um pouco fora de moda.
A nossa história pararia por aqui se o rapaz não integrasse um grupo de moradores de rua, que tomou a inciativa de transformar um mocó em casa.
Para os novos moradores do antigo mocó na esquina das ruas Bahia e José Dias Aro, na Vila Recreio (Área Central de Londrina), a casa pode não ter banheiro, improvisado com um buraco no chão. Faltam janelas, portas, móveis... A comida é preparada no ''dragão'' o velho método ''queima-lata''.
Eles estão contando com o apoio da comunidade, que doou madeiras para que cercassem o imóvel que estaria sob litígio, há vários anos. O local abrigou uma transportadora e uma boate, mas desde que começou o processo litigioso foi abandonado, se transformando num mocó.
O presidente da Associação de Moradores da Vila Recreio e Adjacências, Valmir Rocha, disse que os novos moradores ajudaram a resolver um problema na região. O local abrigava desocupados, que deixavam a comunidade insegura. ''Em 2002, mandamos um ofício para a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), alertando sobre o problema. Eles não tomaram nenhuma providência. Agora, quando a gente passa por lá está tudo limpo'', afirmou Rocha.
Embora a situação precária cause constragimento, a limpeza do lugar dá inveja e nem parece que está sendo cuidado por cinco homens. A única presença feminina é da filhote de gato ''Menina'', que acompanha o grupo.
Com a vassoura na mão, Pereira recebeu a reportagem da Folha na porta da nova casa, convidando para entrar.
As panelas improvisadas com latas de óleo sobre o ''dragão'' e cadeiras velhas doadas pela comunidade são os únicos pertences do grupo formado pelo rapaz, que se considera um ''faz-tudo''; um artesão; um flanelinha; um deficiente mental e um catador de papel.
''Os outros saíram para trabalhar. Eu levantei cedo para limpar a casa. Sempre um de nós fica aqui para não sermos roubados'', contou Pereira, sem parar de varrer.
Há 10 anos, o rapaz mora na rua. A família é de Telêmaco Borba (128 kms ao norte de Ponta Grossa). ''Depois que os meus pais se separaram, quando tinha 14 anos, saí de casa. Já morei em São Paulo, Curitiba e Santa Catarina. Em Londrina dormia em praças e ruas da Vila Nova'', lembrou.
Os moradores e comerciantes do bairro estão satisfeitos com a nova vizinhança. Sem querer se identificar, um comerciante disse que empresta água para o grupo e até pagou a retirada de três caçambas de lixo que os ex-moradores de rua retiraram do imóvel.
''Eles limparam até o outro lado da rua. A presença deles vai dar uma aparência melhor para o local, oferecendo também um pouco mais de segurança para nós. Antes enfrentávamos problemas com arrombamentos. Não dá para dizer que arrombadores se escondiam ali, mas o abandono em que estava o imóvel dava condições para a ação dos bandidos'', afirmou o comerciante, que não esconde a preocupação com as condições subhumanas do grupo.
É interessante notar que até entre os novos moradores do imóvel, que têm um sofá velho, que virou uma cama, e alguns cobertores para se esconderam do frio, a idéia de casa é diferente.
Pereira lembrou que ao reunir os companheiros para morar no prédio abandonado, um deles queria limpar só o lugar onde iria dormir. ''Eu disse que não. Já que íamos morar aqui, falei: 'vamos limpar tudo''', contou, sem dar descanso à vassoura.
Pereira faz a gente lembrar que para muitas pessoas é preciso pouca coisa.
Ainda que se viva num barracão, ''...lá não existe felicidade de arranha-céu. Pois quem mora lá no morro já vive pertinho do céu'', já dizia o cancioneiro popular.

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