As cerca de 60 famílias que moram na invasão localizada no fundo de vale do conjunto José Belinati, zona norte de Londrina, tiveram uma atividade diferente nas últimas três semanas. A maior parte da comunidade esteve ocupada decorando falas, ensaiando danças e arrumando figurinos para a peça ‘‘No Fundo do Vale’’, apresentada ontem pelas ruas do bairro.
  Os moradores carentes se tornaram atores dentro da oficina Teatro Testemunhal, desenvolvida pela diretora chilena Jacqueline Roumeau. A atividade é parte da programação do Festival Internacional de Londrina (Filo). ‘‘Através da arte, as pessoas podem encontrar sentido para suas vidas e encontram um meio para demonstrar sua realidade. É necessário mostrar as coisas como elas são, de forma a resgatar a sensibilidade de um povo’’, acredita Jacqueline.
  A diretora já esteve em Londrina no Filo do ano passado, quando desenvolveu uma oficina semelhante com detentas do 2º Distrito Policial (DP). No trabalho no José Belinati, todos os moradores foram convidados a participar. A adesão a princípio foi tímida, mas o projeto logo entusiasmou a população local. ‘‘Fomos de casa em casa, contando como ia ser. No fim, toda a comunidade ajudou um pouquinho, interpretando, arranjando roupas’’, lembra uma das moradoras, Raquel Palmiro de Paula.
  Há poucos meses, ela abandonou o serviço de catadora de papel devido a problemas de saúde. Na peça, resgatou parte da auto-estima, ao participar do time de cantoras. ‘‘Achamos que ninguém dá valor a este bairro, e é sempre bom quando alguém nos dá atenção. Gostamos demais de fazer teatro. Seria ótimo se tivéssemos isso sempre’’, diz Raquel.
  Na peça, os personagens desenvolvem situações em 11 casas da invasão. O expectador acompanha o movimento, como numa procissão, uma estrutura que Jacqueline define como ‘‘quadros plásticos’’. O roteiro foi desenvolvido a partir de situações do cotidiano dos moradores e as casas-cenário sofreram poucas alterações, de forma a mostrarem a realidade do local sem disfarces. ‘‘Numa das cenas, por exemplo, recriamos a vida de uma moradora que confecciona sabão’’, diz a diretora.
  As intervenções em cada casa traziam números musicais, de dança e desfiles. Ao final da peça, seria apresentado um documentário sobre o trabalho desenvolvido ao longo das três semanas. Juraci da Silva, que sustenta a casa com a aposentadoria de um salário mínimo, disse que irá sentir saudade da experiência.
  ‘‘Não sei se eu sou lá muito artista, mas eu gostei de tudo. A peça foi boa para o bairro porque se virem o que fizemos alguém vai nos ajudar’’, explica ela. Entusiasmada, dona Juraci dá uma risada tímida quando questionada sobre seu papel na peça. ‘‘Ah, não sei direito. Eu tenho que entregar umas flores e dizer umas falas’’, diz ela. Mais que compreendida, arte é para ser sentida.

mockup