Desde o início do ano, Londrina teve confirmados 5.806 casos de dengue clássica, um número mais de dez vezes superior ao de casos registrados em 2002 inteiro, que teve 430 ocorrências confirmadas da doença. Na epidemia que assolou a cidade no primeiro semestre, ninguém sofreu mais do que a população da zona leste. Na segunda semana de fevereiro, quando a doença começava a preocupar, a região contabilizava 140 dos 154 casos confirmados até então, o que representava 91% das ocorrências.
Nos meses seguintes, a dengue se espalhou geograficamente e hoje a zona leste registra 2.146 confirmações 37% do total de casos. A epidemia se desenhou a partir de um surto nos conjuntos Santa Fé, Monte Cristo e Marabá, que são vizinhos. A Unidade Básica de Saúde do Marabá, que atende a população destes três bairros, registrou desde o início do ano 1.303 casos confirmados. Praticamente, um em cada cinco londrinenses que tiveram a doença este ano era morador de um destes conjuntos.
A 17 Regional de Saúde anunciou anteontem a Operação 2004 Sem Dengue, na qual será investido R$ 1,6 milhão para evitar uma nova epidemia no Norte do Estado a partir de janeiro do ano que vem. A população, entretanto, já busca tomar providências sem depender do poder público. Os moradores do Monte Cristo realizarão nas próximas semanas mutirões de limpeza no bairro. O primeiro aconteceria na manhã de hoje, mas não estava confirmado até o fechamento desta edição a Associação de Moradores estava tentando arranjar veículos para o serviço.
O Monte Cristo não possui asfalto nem rede de esgoto. Grande parte de seus pouco mais de 1.600 moradores trabalha como catadores de plástico e papel, materiais que podem reter água da chuva e se transformar em foco de dengue. A população é unânime em afirmar que a epidemia despertou a atenção para a limpeza. ''O bairro está mais limpo, as pessoas não deixam mais acumular tanto entulho pelas ruas'', diz a dona de casa Rosélia de Carvalho Ribeiro.
O marido dela, Mirthon Teixeira da Costa, teve dengue e passou oito dias internado. Ele trabalha como catador de papel. ''Tive dor de cabeça, no corpo, frio, vômito. Não conseguia nem andar'', afirma Mirthon. A família mudou de hábitos depois do susto: o catador afirma que não deixa mais materiais acumulados em seu quintal. ''Também estamos tapando um tambor que usamos para guardar água. Nunca demos atenção, mas uma vez um agente viu o tambor e disse que era foco de dengue. Pouco depois, eu fiquei doente'', diz ele.
As ruas do Monte Cristo estão realmente mais limpas se comparadas ao início do ano, mas ainda existem pontos de acúmulo de entulho. No Santa Fé, a situação é parecida, principalmente nas proximidades de uma invasão de fundo de vale, onde moram 90 famílias. A dona de casa Edianir Castorina Rodrigues mora com outras oito pessoas num terreno com três casas. No início do ano, um de seus filhos e a esposa dele tiveram dengue.
''Acho que existe mais limpeza hoje, o pessoal se conscientizou um pouco. Mas ainda tem muita gente que não está nem aí pra isso. Tem que fazer uma pressão nessa turma'', diz ela. ''Tenho medo de que meu filho pegue a doença de novo e fique com a (dengue) hemorrágica. Agora não tem problema, porque não está chovendo. Mas quero ver no verão''.

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