Moradores contra permanência do aterro
Juarez Ribeiro Baptista tem 49 anos e as mãos sujas de barro. Da sua propriedade no bairro da Caximba, em Curitiba -onde mora e trabalha, quando olha pela janela ou sai no quintal, tem como vista, ao fundo, o aterro. Baptista viveu seu quase meio século de vida no bairro e lá construiu o que tem. É proprietário de uma olaria, na qual emprega outras cinco famílias que também moram no local.
Ele diz que acaba de investir R$ 500 mil em novos equipamentos -mais modernos e menos poluentes. A possibilidade de que o novo aterro comece a funcionar em seu quintal o assusta profundamente. O seu medo é ter de deixar tudo para trás. O mesmo acontece com outros moradores da Caximba, já habituados -mas não acostumados- a conviver com as mazelas do lixo. O impacto negativo do montante de resíduos também assusta.
De acordo com uma estimativa populacional dos bairros da Capital realizada em 2007 pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), a Caximba ocupa 73º lugar entre os 75 bairros da cidade, com uma população de 2.857 habitantes, o que representa 0,16% da população de Curitiba. São esses quase 3 mil curitibanos que se organizaram em uma associação de moradores para evitar que o aterro sanitário "só mude para o outro lado da rua", como diz Jadir de Lima, morador da Caximba e membro da comissão organizadora das manifestações contra a implantação da usina. Segundo ele, os moradores prometem resistir. "Podem até tirar a área de nós, mas vamos vender caro", metaforiza, não se referindo a dinheiro.
Entre as três áreas que podem receber, a partir do ano que vem, o lixo das 16 cidades que fazem parte do Consórcio Intermunicipal para Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos, os moradores da Caximba são os mais organizados. Faixas de protesto nas casas são indícios. Também já organizaram atos contra o lixão e, no próximo sábado, dia 20 de dezembro, realizam o seminário "O desafio do lixo na Região Metropolitana de Curitiba - Alternativas e Soluções", com a participação de lideranças do bairro e especialistas em questão ambiental. A reunião será realizada no bairro, às 14 horas, no Salão Paroquial da Igreja São João Batista.
O local não foi escolhido por acaso. O padre José Antônio da Cunha também participar da "batalha" - palavra que ele utiliza constantemente. "Essa é uma situação de desrespeito à vida, por isso a Igreja entrou nessa luta", diz o padre José, que culpa a Prefeitura de Curitiba pela situação, que afirma ser de indefinição, descaso e abandono. "A prefeitura teve 20 anos para pensar o que fazer e não o fez. Agora, na comunidade, vão encontrar resistência até o fim", promete. Na luta entre espada e cruz, o padre confia em outro símbolo de peso: a balança da Justiça. "Rezar, estamos rezando sempre, mas neste caso quem vai decidir é a Justiça", encerra o padre, cheio de fé. (T.A.)





