A transferência do pátio de manobras da empresa ferroviária América Latina Logística (ALL) do centro da cidade para um terreno na zona rural foi motivo de festa e comemoração ontem em Mandaguari (33 km a leste de Maringá). O antigo pátio ocupava uma área linear de 1,2 km entre a região central e o Jardim Esplanada, e no local ocorreram acidentes que causaram inúmeras mortes e mutilações de cidadãos de todas as idades durante décadas. Para atravessar o pátio, a população era obrigada a esperar por duas a três horas até que os trens realizassem suas lentas manobras.
O diácono da Paróquia Bom Pastor, Benoni Rosa Miranda, conta que há dois anos a população começou a se mobilizar de forma organizada e cobrar uma solução para o caso. ''Realizamos inúmeras reuniões no salão paroquial e protestos contra aquela situação, e felizmente conseguimos a adesão do Ministério Público. A partir dali, as autoridades começaram a se mexer e graças a Deus a realidade mudou''.
O gerente de produção da ALL, Celso Fylyk, explicou que a transferência das operações custou aproximadamente R$ 1,1 milhão - 70% financiados pela empresa e 20% pelo município. ''Para nós também é uma conquista porque melhora a segurança das manobras. Antes, os trens transitavam por mais de uma hora dentro da cidade, e agora esse tempo caiu para 2 a 3 minutos''. De acordo com ele, o maior fluxo de movimento se concentra na rota entre Maringá e os portos de Paranaguá e São Franscisco do Sul, em Santa Catarina. A ALL estima que o antigo pátio era responsável por dois a três acidentes graves por ano.
O estudante Tiago Augusto de Albuquerque, de 19 anos, diz que relembra quase todos os dias a tentativa de atravessar a linha férrea na tarde de 25 de maio de 2003, um domingo. Ele conta que estava aguardando por quase duas horas o término da manobra de dois trens, quando, seguindo o exemplo de outras pessoas, tentou atravessar num momento em que as locomotivas pararam.
O que se seguiu foi muito rápido e mudou sua vida: Tiago tropeçou no engate entre dois vagões e caiu, batento a cabeça no trilho. Meio zonzo, diz que teve tempo apenas de tirar a cabeça. ''Na sequência, ouvi o barulho de algo quebrando e quando olhei, meu pé tinha sido cortado. Só vi o dedão em meio àquele sangue''. O estudante guarda na mente o olhar assustado das outras pessoas em sua direção. ''Ninguém sabia o que fazer, todo mundo apavorou''.
Em que pese o destino doloroso, Tiago agradece os avanços da medicina e o tratamento competente da Associação Norte Paranaense de Reabilitação (ANPR), em Maringá. Hoje, com a ajuda de uma prótese, o estudante caminha quase normalmente, e ainda arrisca umas pedaladas na bicicleta e uma partida de futebol ''se for no gol''. Sua própria força interior parece ter contribuído para a recuperação.
A dor da mutilação chega a calar outras vítimas. A reportagem da Folha foi à casa de um outro estudante mandaguariense, de 23 anos, que perdeu os dedos do pé num atropelamento no mesmo local. Da janela de casa, ele disse que ainda sofre com o acidente e preferiu não falar sobre o assunto.
''Até hoje a gente não sabe como foi, ele não consegue contar. A gente tenta ajudar mas ele ficou muito revoltado'', relata uma prima, que não quis se identificar.

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