Londrina

Dorico da SilvaSem negociaçãoOdete Petrech, viúva há um ano e quatro meses: atraso nas prestações e ‘convite’ para desocupar o imóvelOs moradores do Residencial Jardim das Américas, localizado na zona norte de Londrina, querem que a Caixa Econômica Federal regularize a situação deles e abra logo financiamento para as cerca de mil famílias que residem nos 83 prédios do conjunto. A maioria ocupou os apartamentos há cerca de três anos e até agora espera a definição da Caixa sobre o financiamento. Ontem à tarde, uma comissão formada por 20 moradores foi à agência centro da CEF para apresentar a reivindicação à gerência.
Paulo Urquiza, morador do América do Norte 2, diz que há muito tempo os moradores procuram a construtora Santa Cruz (hoje representada na Cidade pela empresa de cobrança Mendes Neto) reivindicando o início do financiamento. Ele lembra que os moradores estão preocupados com a taxa mensal de cerca de R$ 200 que as famílias pagam para a contrutora Santa Cruz - algumas famílias pagam a mensalidade em juízo. ‘‘A gente não sabe para onde este dinheiro está indo’’, reclama Urquiza. Ele conta também que a grande parte dos moradores pagou uma taxa de entrada, que varia entre R$ 400,00 e R$ 1,3 mil.
Urquiza lembra que é a primeira vez que os moradores do Jardim das Américas se organizam para cobrar da Caixa Econômica Federal a agilização do financiamento dos 1.424 unidades do residencial. Se o financiamento demorar para sair, eles ameaçam parar de pagar a prestação e acertar só o condomínio. A área útil de cada apartamento fica em torno de 57 metros quadrados.
Só que o atraso no processo de financiamento não é o único problema enfrentado pelos moradores. Paulo Urquiza ressalta que muitas unidades apresentam problemas estruturais, como rachaduras e buracos nas paredes, bolor e manchas causadas por infiltrações. ‘‘Eles usaram, nesta construção, material de quinta categoria. Além disso, a liberação do financiamento está demorada porque a obra é superfaturada’’, acusa o morador.
Outra queixa dos moradores é quanto à forma de administração do condomínio feita pela Mendes Neto. ‘‘Nós moramos em um campo de concentração’’, diz Urquiza. Eles lembram que as famílias com taxa de condomínio ou prestação atrasada não podem se mudar do prédio e nem mesmo colocar no apartamento um móvel ou eletrodoméstico novo. A dona-de-casa Selma Moura, 21 anos, diz que estava com o condomínio 15 dias atrasado e não pode receber um sofá novo, comprado em uma loja da Cidade.

Dorico da SilvaPátio interno do residencial: indefiniçãoUrquiza diz que uma família se mudou, mas só poderá carregar os móveis depois que acertar todos os débitos com a construtora. O funcionário público aposentado José Tostes de Oliveira reclama que seus filhos não podem guardar o carro na sua garagem - que fica vazia - quando aparecem para visitá-lo.
A dona-de-casa Odete Camargo Petrech, 55 anos, ficou viúva há um ano e quatro meses e na época do falecimento do marido enfrentou dificuldades financeiras, atrasando por cerca de quatro meses a prestação do apartamento. Ela conta que tentou o parcelamento da dívida junto à construtora, mas da ‘‘negociação’’ só conseguiu o aviso que deveria deixar o imóvel. ‘‘Vou procurar um advogado’’, comenta Odete Petrech.
O diretor da Mendes Neto, Vitor Mendes, garante que o valor pago mensalmente vai ser debitado do saldo devedor. Ele explica que a Santa Cruz opera em Cuiabá (MT) e a Mendes Neto administra o empreendimento. ‘‘Somos o maior interessado que saia logo este financiamento’’, diz Mendes.
Vitor Mendes não concorda com a acusação de que o material usado pela construtora é de baixa qualidade. ‘‘É uma construção de 1990, que estava à frente da época dela’’, comenta. ‘‘Tem pisos de ardósia, jardinamento, central de gás e controle de segurança com guarita.’’
Mendes diz que a proibição de entrada e saída de mudança para os inadimplentes, além do recebimento de novos eletrodoméstivos, é previsto na convenção do condomínio. ‘‘Não é justo que uns paguem pelo gás, água e segurança dos outros’’, diz. Ele ressalta que, se o débito não for grande, a empresa tenta um acordo com o morador para facilitar o pagamento. ‘‘Mas tem gente que deve mais de um ano de prestação.’’
A demora na liberação do financiamento deve-se às denúncias de superfaturamento da obra, lembra Mendes. Ele explica que o governo federal já realizou várias sindicâncias, mas nenhuma irregularidade foi encontrada. O administrador frisa ainda que é do conhecimento da Caixa Econômica Federal o contrato entre os moradores do Residencial Jardim das Américas e a Construtora Santa Cruz.

Dorico da SilvaUrquiza e Tostes, moradores: reclamaçõesEle cedeu à Folha cópia da ata de uma reunião ocorrida na Caixa Econômica Federal de Curitiba, em 21 de maio de 1996, constando, no parágrafo 3, que ‘‘é de conhecimento da CEF que os apartamentos dos residenciais acima citados estão sendo ocupados através da realização de acordo entre os ocupantes e as empresas Santa Cruz Engenharia Ltda e Técnica Engenharia Ltda’’. No documento, a CEF se compromete também em dar prioridade de compra aos atuais moradores: ‘‘Os referidos ocupantes das unidades habitacionais dos empreendimentos em trato, adimplentes com o instrumento contratual citado no item 3, terão prioridade para a oportuna realização do repasse de financiamento junto à CEF dos imóveis que atualmente vem ocupando, desde que preencham as exigências cadastrais’’.
O gerente de mercado da Caixa Econômica Federal, Roberto Bachamann, lembra que estes empreendimentos estão sendo analisados pela matriz da CEF, em Brasília. ‘‘Estamos no aguardo de uma solução da matriz’’, explica. Bachamann ressalta que, antes da liberação do financiamento, os moradores terão que preencher alguns requisitos, como renda mínima familiar, não possuir imóveis na Cidade ou outro imóvel financiado pela Sistema Financeiro de Habitação.

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