Quem passa de carro pela estreita Rua Goiás (Centro de Londrina), enervado com o congestionamento, pode enxergar na casa da professora aposentada Maria Aparecida Berbicz, 60 anos, apenas mais um entrave para a necessária duplicação da via. Para a família residente no imóvel de meio século, contudo, as paredes de peroba abrigam uma história de vida e, principalmente agora, de luta.
Insatisfeita com os R$ 82 mil oferecidos pela desapropriação da residência, Maria vem tentando negociar um valor maior com a prefeitura. Ela é proprietária de uma das cinco casas que restam para o Município tomar posse, antes de concluir as obras na Goiás. Na última segunda-feira, dois imóveis pertencentes à Universidade Filadélfia (Unifil) foram demolidos com autorização judicial.
Com base em avaliações encomendadas por ela em três imobiliárias, a aposentada pede R$ 120 mil para deixar o local. Ela apresentou à reportagem cópias do Habite-se e do alvará de licença concedidos em 1976 para construção de uma benfeitoria nos fundos da casa. ''O diretor de Bens do Município não está levando isso em conta porque afirma que eu não tenho os documentos. Mas aqui estão, assinados pela prefeitura'', comprova.
Maria também mostrou cópias de recibos de depósito judiciário feitos pela prefeitura, referentes aos dois imóveis da Unifil demolidos esta semana. Localizados no mesmo quarteirão da casa da aposentada, um deles traz recibo no valor de R$ 100 mil, outro de R$ 135 mil. ''As duas casas eram bem menores que a minha'', atesta. Segundo ela, o Município tem usado o argumento de que sua residência foi posta à venda por R$ 90 mil no final de 2005. ''Minha mãe estava muito doente e, no desespero, tentei vender a casa para pagar o tratamento. Ela faleceu no ano passado'', conta.
A aposentada ganhou o imóvel do pai em 1965, quando se casou. ''Mas lembro que a casa já existia quando eu tinha 8 anos e ia brincar ali perto. Era só cafezal em volta e havia um matadouro no lugar da Unifil'', recorda. Filha e neta de pioneiros - seu avô, espanhol, chegou a Londrina em 1932; a mãe foi a primeira aluna do Colégio Hugo Simas -, ela lembra que já nos anos 60 era ventilada a possibilidade de se duplicar a Rua Goiás. ''Não vim para cá enganada. Inclusive sou a favor da obra, para a evolução da cidade'', declara.
Na residência de madeira, a ex-professora da rede municipal criou três filhos. Divorciada, hoje ela mora com o pai, que tem 89 anos e se recupera de um câncer; uma filha de 37 anos, que perdeu o emprego recentemente; um neto de sete anos e nove cachorros.
''Nossa vida tem sido olhar os classificados. Preciso de uma casa onde caibam minha família e meus móveis, e onde meu pai, que está prestes a andar em cadeira de rodas, possa se locomover'', apela Maria, que já começou a encaixotar seus pertences.
Ela constata que mesmo com R$ 120 mil não se encontra ''metade'' de uma casa como a dela na Área Central. A aposentada, que morou no Centro a vida toda, diz que está disposta a se mudar para um bairro distante. ''Sou eu que sustento a família, na ponta do lápis. Sei que ainda vou arcar com o custo da mudança e da escritura, mas não quero briga, só o que é justo.''

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