A ineficiência do Estado em questões báásicas como educação e saúde é diretamente associada às pessoas que trabalham no serviço público. Um apelido, ‘‘barnab钒, resume pejorativamente o sentimento da população em relação aos funcionáários que penduram o paletó na cadeira só para marcar presença. A experiência de ser mal atendido num órgão público é comum a quase todas as pessoas e por isso o termo ainda é empregado com frequência. Em Curitiba, um professor da Universidade Federal acaba de lançar um livro, ‘‘A Repartição’’, que de certa forma mostra um outro lado, o dos funcionáários realmente preocupados com as mazelas do Estado, capazes de rir dos problemas e dispostos a acabar com o ‘‘estigma do barnab钒.
Em cinco histórias curtas, o economista e engenheiro Ademir Clemente, 48, mostra de uma maneira bem-humorada como as ‘‘contradições’’ e os ‘‘absurdos’’ concentram-se no setor público, ainda que estejam presentes em toda a sociedade. Ele diz que os ataques ao setor público se intensificam na medida em que as coisas não funcionam. Nessa situação, diz ele, os ‘‘barnabés’’ estão condenados ao desaparecimento, porque em função da economia global e do enfraquecimento do Estado, ‘‘jááá não há mais espaço para funcionáários ineficientes, consumidores de papel, café e cigarros’’.




Modernização extingue os ‘barnabés’
Professor da UFPR conta no livro ‘‘A Repartição’’ um pouco da visão dos funcionáários sobre o dia-a-dia do serviço público
Eledovino Bassetto Junior
Especial para a Folha
Folha de LondrinaPoliticagemClemente:‘‘Quase todo mundo já passou ou vai passar pela experiência de ser mal atendido num órgão públicoO livro é uma idéia antiga, pensada háá pelo menos 15 anos. Nesse tempo, Ademir Clemente sempre trabalhou no serviço público, de modo que estáá mais do que familiarizado com as situações retratadas no texto. Doutor em Engenharia da Produção, o autor sempre teve um trabalho mais técnico, com outros seis livros na áárea de economia. ‘‘A Repartição’’ é a primeira incursão pelo campo da reflexão sobre o papel do serviço público. É, diz o professor, uma decorrência dos anos passados como servidor público.
Veja os principais trechos da entrevista:
Folha - Como nasceu a idéia do livro?
Ademir Clemente - A idéia nasceu em 1983, quando eu trabalhava no Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social) ainda, e havia importantes mudanças estruturais acontecendo, e isso sempre exacerba os conflitos, as idiossincrasias, as pessoas não se ajustam, eu mesmo questionava essas mudanças, por serem autoritáárias, contraproducentes. Eu era a favor de uma coisa muito mais fluida, mais eficiente e queria mostrar isso. Escrevi um artigo que chama-se Administração de Instituições de Pesquisa, que é exatamente uma forma de manifestar o descontentamento com o que estava acontecendo no Ipardes. Eu achava que as mudanças estavam muito mais num estilo militar, num estilo industrial, o que não era adequado para uma instituição de pesquisa.
Folha- As histórias do livro contam uma visão do funcionáário médio, aquele que estáá no serviço público porque precisa do emprego...
Clemente - Bem, o barnabé é um termo que ganhou popularidade na década de 70. Era o auge da tecnocracia, quanto o setor público se separa em dois segmentos bem distintos: os tecnocratas, aqueles funcionáários públicos bem remunerados, preparados, prestigiados e os barnabés, que eram a maioria, a massa, que até hoje existe e sofre com esse estigma. Quero enfatizar essa separação porque houve um enfraquecimento do setor público a partir dos anos 70, que deixou essa situação muito exposta. O termo ‘‘barnab钒 se tornou popular e até pejorativo, mas depois de um certo tempo até os servidores passaram a se aceitar como ‘‘barnabés’’. Em princípio ninguém quer ser, mas no fundo todos acabam sendo....
Folha - Qual é o estereótipo do ‘‘barnab钒?
Clemente - É isso mesmo, um estereótipo, porque a sociedade pensa o ‘‘barnab钒 necessariamente como um funcionáário que tem chefe, só trabalha quando mandam e ficam olhando. É aquele que deixa o paletó na cadeira para dizer que estáá fazendo expediente, toma café do dia inteiro, fica fumando no corredor. É uma imagem negativa que a sociedade construiu do setor público, porque essa não deveria ser a regra. Até por isso o nome do livro é ‘‘A Repartição’’, meio nostáálgico, porque lembra aquela coisa de dizer que ‘‘ trabalho na repartição. Nesse tempo, ser funcionáário público era motivo de orgulho, para a família e os amigos. Hoje as pessoas falam com vergonha que trabalham no setor público.
Folha - O livro É estruturado em cinco contos, com ‘‘expedientes...’
Clemente - Em vez de capítulos, o livro estáá dividido em cinco motes, que procuram mostrar a realidade a partir de um ponto de referência, que só o Organograma, Recursos Humanos, Orçamento, Papel e o Público. O público fica por último não por acaso, de acordo com o estereótipo que a sociedade tem, porque muitos órgãos públicos esquecem que são públicos.
Folha - As pessoas jáá aprenderam a parar de reclamar do serviço público?
Clemente - Quase todo mundo jáá passou ou vai passar pela experiência de ser mal atendido num órgão público. Agora, o que a gente precisa é não admitir que isso seja a regra geral, até porque isso valida a coisa. Pelo contárário, temos que valorizar as exceções e nunca deixar de manifestar o descontentamento. Essa é uma atitude de cidadania. ‘‘Livro tem crítica contundente
às autoridades e aos dirigentes’’
Folha - Quais as situações retratadas no livro?
‘‘O chefe muitas vezes
é despreparado e ocupa o cargo por critérios de
favorecimento
político’’
Clemente - Um dos casos é o de um desabamento e das implicações disso, sobre de quem é a responsabilidade pelos fatos. Crianças foram soterradas, e eu destaco nisso o atendimento das vítimas num hospital público, onde o descaso é muito grande. Mas háá também o caso do funcionáário que vê as coisas erradas, estuda o assunto, e quando apresenta a sua sugestão é repreendido. Eu procuro mostrar que, no fundo, é o ‘‘barnab钒 aquele funcionáário que se preocupa, que se envolve, que ajuda o público. Tem aí uma crítica sincera e contundente às autoridades e à classe dirigente, porque a sociedade de modo geral atribui as mazelas do setor público ao ‘‘barnab钒. Então ele é responsabilizado por tudo isso. Existem casos em que o ‘‘barnab钒 estáá preparado para fazer certo, mas recebe orientação para não fazer ou fazer algo desvirtuado.
Procurei dar uma carga boa de emoção, porque eu acredito que a emoção é o caminho para a reflexão, porque você só reflete sobre aquilo mexe que com os sentimentos. A gente se acostumou a não refletir com a miséria, porque nos acostumamos com os mendigos. Eles não sensibilizam mais e a gente não reflete mais. Para o cidadão refletir, procuro fazer isso, de um forma bem humorada.
Folha - A figura do chefe incompetente ainda é muito forte no serviço público?
Clemente - Essa coisa do mando, do autoritarismo, ainda estáá muito presente no setor público. O chefe muitas vezes é despreparado e ocupa o cargo exclusivamente por critérios de favorecimento político. Ele é muitas vezes o principal responsáável pelos desvios do setor, porque os ‘‘barnabés’’ não podem fazer nada. Mas não é bom generalizar, porque a maioria deles não atrapalha, mas háá outros que querem dar a sua marca pessoal e fazem barbaridades. Enquanto isso, os ‘‘barnabés’’ vão assistindo...‘‘O setor público terá que se
profissionalizar a curto prazo’’
Folha - Como o sr. vê o futuro dos servidores públicos? Ainda existe essa divisão entre tecnocratas e ‘‘barnabés’’?
Clemente - Não, essa divisão estáá acabando gradualmente. O caso é que o setor público vai ter que se profissionalizar num prazo de tempo muito curto, por causa da pressão pela modernização do Estado, em decorrência da economia globalizada e dessa onda neoliberal. Então o ‘‘barnab钒 vai acabar sendo extinto, por força de um Estado que supra as necessidades dos cidadãos.
No fundo, os funcionáários públicos serão o grande motor dessa transformação, porque eles são os primeiros a perceber que ou se modernizam ou perdem seus empregos. Então dáá para dizer que o ‘‘barnab钒 estáá acabando, só existe ainda naquelas repartições mais encardidas, mas estáá sendo pressionado a se modernizar ou se afastar e tentar se aposentar.
Folha - Os ‘‘barnabés’’ também podem ser felizes, apesar do estigma de vagabundo?
Clemente - Isso incomoda a todos, inclusive aqueles que a gente sabe que são vagabundos (risos) . Então, isso é uma coisa positiva, porque mesmo os que não aceitam isso ficam numa posição que não poderão ficar parados. A pior coisa é quando você chama alguém de vagabundo e ele diz é isso mesmo, sou vagabundo. A reação contra o pronunciamento do presidente da República mostra isso, mesmo os que são vagabundos.
Folha - Nestes tempos globalizados háá muita conversa sobre trazer para o setor público os mesmos critérios da iniciativa privada. Até que ponto isso funciona?
Clemente - Isso não pode ser feito totalmente porque o setor público nunca vai ter como objetivo obter resultado financeiro. Háá uma coisa báásica que é o interesse público. A prioridade mááxima é algo que sempre vai estará em segundo plano para as empresas, que é o resultado social do esforço. Essa diferença é fundamental, não dáá para misturar isso. O setor público pode adotar váários critérios empresariais, controlando custos, adotando metodologias mais eficientes de trabalho, mas transformar órgão público em empresa é coisa de quem não entende nem de empresa nem de setor público. É claro que a eficiência tem quer ser perseguida, mas isso começa a ser prioridade e vejo essa situação com muita esperança. Em consequência disso, o funcionáário público estáá recobrando um pouco da sua auto-estima, da consciência do seu papel na sociedade e isso é muito bom.
Folha - Qual a sua visão sobre a interferência do Estado na economia?
Clemente - Estou otimista, acho que o setor público será daqui para frente muito menor do que é hoje, com toda essa onda de privatização, de emagrecimento forçado. Mas existem ááreas que só o Estado pode fazer, como a educação democráática, segurança e saúde. Mas o governo produzir aço e trabalhar com empresas de exportação e importação jáá é demais. Mas o livre mercado não é a resposta para tudo. Para as nossas desigualdades sociais, o setor público é pequeno, muito mal orientado, gastando esforço onde não deveria gastar, mas se omitindo em uma porção de outras ááreas onde deveria estar.

mockup