A vergonha em admitir o fracasso levou a dekassegui Yara Gonzaga Suzuki, de 16 anos, a omitir, em telefonemas para sua mãe, as dificuldades pelas quais passava no Japão. O presidente da Associação dos Imigrantes no Brasil (Asibrás), Sérgio Morinaga, diz ser essa a razão de muitas famílias desconhecerem os problemas de seus parentes no país. ‘‘Se ligações e cartas param de chegar é preciso procurar ajuda; pode haver algo errado’’.
Yara queixa-se de ter sido enganada pelos agenciadores que a recrutaram. As promessas de trabalho, foram cumpridas como combinado: uma pessoa a esperaria no aeroporto em Nagóia e a encaminharia a entrevistas para emprego. A assistência, deixou a desejar quando ela foi demitida. ‘‘O empreiteiro me disse que, a partir daquele momento, o problema era meu’’. Ela chegou anteontem ao Brasil depois de passar 13 meses no Japão. Sete dos quais, na empresa indicada pela agência.
Antes de ficar desempregada, logo nos primeiros meses em que estava no Japão, Yara sentia dores no abdômen. Na linha de montagem, os supervisores não permitiam que descansasse. ‘‘Diziam não poder me substituir’’. Em alguns dias, como as dores continuavam, ela foi levada para uma consulta. ‘‘O médico examinou e disse que não era nada, que logo passaria’’. Não passou. Por receio de perder o emprego, ela parou de se queixar. Hoje, após desembarcar, foi examinada e constatou-se tumor no ovário.
A consulta no Japão não estava coberta por seguro e foi descontada do salário de Yara. ‘‘Mal sobrava dinheiro para eu comer’’. A passagem, o agenciamento, no Brasil e no Japão, também foram descontados durante sete meses. Ontem, o agenciador Mutumi Yamada, de 60 anos, disse não saber de tudo isso e que a mãe de Yara ligava constantemente agradecendo pela filha estar mandando mil dólares mensais. ‘‘Como poderia, se não me sobrava nada?’, questiona Yara.
Pela passagem, Yara afirmou ter pago US$ 3 mil, quase cinco vezes mais que o cobrado pela Vasp. Pelo agenciamento no Japão, US$ 200 por mês. ‘‘Não lembro quanto era descontado para os agenciadores brasileiros’’. Nos últimos seis meses, ela trabalhava como recepcionista em um karaokê. ‘‘Eu ligava para os agenciadores aqui que não respondiam’’, disse Maria da Rocha, mãe de Yara. ‘‘Eles não deram um número para ela ligar lá antes da viagem’’. Ao chegar no Brasil, a jovem pensava apenas em descansar. ‘‘Depois quero ver o que faço da minha vida’’.

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