Curitiba - Mitos sobre o vírus HIV e a forma de trasmissão da doença podem ser o motivo de algumas pessoas agirem com imprudência no que diz respeito ao sexo seguro. Matéria publicada pela FOLHA no último domingo levantou o tema de homens que, em plena era da informação, ainda procuram prostitutas para ter relações sexuais sem preservativo. E muitas delas aceitam. A informação, comprovada pela reportagem in loco, foi assumida pelos representantes das profissionais e por órgãos governamentais ligados à saúde pública.
A presidente da organização não-governamental (ONG) Liberdade, Carmem Costa, conta que, mesmo com todo o trabalho de orientação junto às prostitutas, a mudança de comportamento seria muito difícil. Apesar de bem amparados com orientações e insumos -camisinhas que são distribuídas por ONGs ou por órgãos oficiais- esses homens e mulheres decidem arriscar a própria saúde, e também a de outras pessoas, como esposas, maridos ou parceiros. A situação independe de classe social ou nível educacional. Na maioria das vezes, como o técnico em informática Roberto (nome fictício) relatou, a pressa da hora H fala mais alto.
Um dos mitos que facilitam esse tipo de comportamento é a impressão de que a doença estaria controlada. Mas, de acordo com o médico Alceu Fontana Pacheco, presidente da Sociedade Paranaense de Infectologia e diretor de saúde coletiva da Associação Médica do Paraná, ela ainda deve ser encarada como fatal. ''É uma falsa impressão. De fato, o vírus pode ser 'controlado', mas apenas para as pessoas que tomam o coquetel de forma extremamente disciplinada'', afirma.
O outro mito é que homens não contrairiam o vírus ao ter relações sexuais desprotegidas com mulheres ou homens, na posição de ativos. Segundo Pacheco, quando existe a troca de fluidos corporais, seja o esperma ou a secreção vaginal, há transmissão do vírus. ''Isso não quer dizer que, ao ter relação desprotegida com uma pessoa HIV positiva, haverá contaminação. Mas, quanto mais houver esse contato, maior o risco'', diz.
''Há situações de casais casados em que um é portador do vírus e o outro não, mesmo tendo relações sexuais sem preservativo. Mas, podemos dizer que é uma questão até de sorte, já que, com um único contato, pode haver a transmissão. Também há contaminação pelo sexo oral'', explica o médico. Outra informação que deve ser levada em conta é que, quando um dos parceiros tem outra doença sexualmente transmissível, o risco de contrair o HIV é dobrado.
Algumas pessoas, após infectadas, deixam de usar preservativos com outros parceiros soropositivos. Essa prática também implica em risco para saúde de ambos, já que são conhecidos vários subtipos do vírus HIV que podem criar resistência a certas doses dos medicamentos.
Conhecendo todos esses fatores e riscos, Pacheco considera como patológica a pessoa que se arrisca em práticas como sexo desprotegido com garotas de programa ou jogos sexuais sem conhecimento do parceiro. A mesma avaliação faz a psicóloga Marilandes Ribeiro Braga, que faz parte da Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade.
''Só posso considerar como desequilibrada a pessoa que se expõe a esse risco. E ainda por cima, muitos correm o risco por ele e pela esposa. Se a pessoa tem esse desequilíbrio, ela com certeza não vai parar, vai seguir contaminando outras pessoas'', conta.
Para a psicóloga, o sexo sem camisinha com uma pessoa sem a certeza de que seria ou não portadora de Aids nada tem a ver com o prazer da relação, mas puramente com o desejo de viver perigosamente. ''Já a garota de programa que se submete a essa situação, só posso imaginar que é porque realmente precisa daquele dinheiro. Ela, muitas vezes, acaba colocando o bem estar da família ou os filhos antes de si mesma'', comenta Marilandes.
A especialista menciona uma outra situação na qual pessoas arriscam a saúde. ''Ouço muitos casos de jovens que transam sem camisinha justificando não terem se preparado para o momento por ter 'pintado o clima'. Nesse caso, não acredito que seja por desequilíbrio, é falta de juízo mesmo'', conclui.

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