Dormindo na linha do solstício de verão, as pirâmides de pedras que, supostamente seriam de um cemitério caingangue no alto de uma colina numa propriedade rural na região da Serra do Cadeado, em Mauá da Serra (54 quilômetros ao sul de Apucarana), despertaram nos arqueólogos do Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) outras suspeitas, como a de serem os restos de um calendário indígena.
Porém, o sol intenso no topo do montanha - astro que nesta época do ano priva a calota polar ártica de sua luz porque está abaixo da linha do horizonte - faz sombra sobre o mistério, que reluz como uma descoberta arqueológica inédita, sem relatos anteriores conhecidos pelos pesquisadores maringaenses.
A segunda expedição ao achado arqueológico foi realizada na última sexta-feira. A primeira, também acompanhada pela Folha, aconteceu em janeiro.
Além da professora Kimiye Tommasino, professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina e doutora em Antropologia pela USP, que já visitou o possível sítio arqueológico, participaram do dia de campo o professor do Departamento de Agronomia da UEM, Marcos Rafael Nanni, doutor em Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto, e Lúcio Tadeu Mota, professor do Departamento de História da UEM, pós-graduado pelo Museu Nacional. Apaixonado pelo assunto, o promotor da Vara da Infância e Juventude de Maringá, Robertson Fonseca de Azevedo integrou o grupo, acompanhado por uma equipe de reportagem da Folha.
As cinco pirâmides olham para o nascer do sol. A altura varia de 1,60 a 1,80 metros, com perímetro basal em torno de 3,80 a 10 metros. Existem pedras espalhadas pelo local, o que faz crer que outras edificações ruíram.
Os cientistas também colheram dados sobre a posição geográfica, através de GPS e o formato das edificações. Ainda fizeram a coleta de pedras para análises.
''Queremos saber se algumas rochas foram trazidas de algum lugar. Vamos buscar informações sobre o alinhamento das edificações, que é proposital. Eles (quem ergueu as pirâmides) não teriam necessidade de estabelecer as construções daquela forma. Mesmo que seja para funeral, a disposição alinhada é por algum motivo'', explia Nanni, lembrando que as coordenadas geográficas das edificações estão alinhadas a 23,30 graus, combinando com a linha do solstício, o Trópico de Capricórnio.
''Pode não ser um cemitério indígena. Como é uma paisagem mística, temos que levar em consideração também a marcação do solstício. Se fossem iniciados no processo de marcação de fases e calendários, não teriam a precisão dos maias e astecas. O solstício era utilizado desde a antiguidade para demarcar as estações do ano. A inclinação da Terra é de 23 graus em relação ao sol. No dia 24 de dezembro, desde os povos célticos, como o sol abaixava no horizonte, faziam festas para acordar o astro'', acrescenta o pesquisador.
Sobre um terreno basáltico em que se encontra ainda o basalto misturado com arenito, numa região de transição geológica entre o Planalto de Apucarana e o Segundo Planalto, a descoberta intriga os pesquisadores, que devem voltar para fazer escavações nas ruínas de algumas edificações que se espalham pela colina.
Quem quer que tenha erguido as edificações fez caixas de pedras grandes, enchendo-as com outras menores.
Os pesquisadores dizem que pode ser utilizado um detector de metais no trabalho.''Talvez tenhamos que fazer uma boa limpeza no entorno das edificações e uma prospecção em busca de resquícios'', diz Mota, adiantando detalhes da pesquisa arqueológica que será realizada.
Pela colina do suposto cemitério índigena também cruzam histórias de bandeirantes, que teriam passado pela região, formando hipóteses sobre a descoberta.
''Antes de conhecermos o lugar, discutimos o assunto em Maringá. No século 17, Borba Gato e Manoel Preto, chegaram nessa região, em 1628. Vieram até o Tibagi e fizeram um forte. Andaram promovendo destruições, entraram em reduções jesuítas nos vales do Tibagi, no Paranapanema e Ivaí, levando índios para São Paulo'', afirma Mota.
''O que complica é que são várias edificações. Caso fossem bandeirantes, encontraríamos uma marcação num lugar só'', refuta o pesquisador, deixando que o sol sobre a colina continue a fazer sombra sobre o mistério.

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