Paulo José Soavinsky
Especial para a Folha
Começa a ser desvendado um dos mistérios que povoam a imaginação fértil dos nativos da Estação Ecológica da Ilha do Mel, paraíso em forma de ferradura encravado na entrada da Baía de Paranaguá, que só no ano passado foi visitado por cerca de 70 mil turistas. Um dos famosos ‘‘panelões de ferro’’ das histórias dos habitantes do litoral paranaense, por onde começou o desbravamento da região – a princípio com o ciclo da caça ao índio, para servir como escravo e, depois, com o ciclo do ouro –, foi finalmente revelado. Trata-se de um grande tacho de ferro que está semi-enterrado na desértica Praia do Miguel, a meio caminho de duas das principais atrações da ilha, o Farol das Conchas, concluído em março de 1872, por ordem de Dom Pedro II e a Gruta das Encantadas, localizada na praia de mesmo nome.
Durante muitos anos, os relatos dos ‘‘panelões’’, como são chamados os tachos pelos nativos, permaneceram no campo das lendas, como a das sereias da gruta, e não ganharam crédito pela dificuldade de serem vistos. Pelos relatos de antigos pescadores, que dizem ter visto os ‘‘panelões’’ expostos pelas marés mais violentas, as chamadas ‘‘marés de lua’’, ou pelas enxurradas, os enormes e pesados panelões de ferro, madeira ou cobre estariam escondidos nas areias das praias de Encantadas, Miguel, Brasília e Ponta Oeste da Ilha do Mel.
Um exemplo seria o ‘‘panelão’’ de madeira enterrado na foz do córrego que deságua na Prainha, em Encantadas, próximo do trapiche. A visão é rara e poucos são os nativos que podem apontar o local aproximado em que estão enterrados ou semi-enterrados os quatro panelões da Ilha do Mel, há pelo menos 100 anos. Pescadores que já moraram nas ilhas da Baía dos Pinheiros garantem que há mais desses panelões na Ilha das Peças e do Superagui.
Dos poucos nativos que dizem ter observado as relíquias misteriosas à luz do sol, Armando Valentim e seu irmão mais novo, Arlindo, 66 anos, líderes comunitários dos mais respeitados e, ainda, João Rodrigues dos Santos, 46, Zenir Isidoro, 49, Nelson Agostinho, 67, Romão Miranda da Veiga, 77, e Francisco Neves, 68, antigos moradores das Encantadas, ainda guardam detalhes do achado na memória. Eles revelaram a presença dos tachos da Prainha, Brasília e Miguel quando do levantamento do primeiro mapa ecoturístico da Ilha do Mel, feito no verão de 98 com o objetivo de ajudar na compatibilização do turismo com desenvolvimento social e conservação.
Quando do trabalho, o geólogo Gil Piekarz e o engenheiro agrônomo formado na Itália, Cláudio Lazarotto, além do autor desta reportagem (co-autores do mapeamento), ouviram lendas assustadoras sobre achados de moedas de ouro que correm na região, várias histórias de navios afundados que mexem com o imaginário da população e algumas constatações práticas, como a existência de um muro de pedras irregulares com a argamassa encrustrada de conchas, e ruínas ao pé do Morro Bento Gonçalves, o mais alto da ilha, a 151 metros acima do nível do mar.Feitos de ferro, madeira ou cobre, os pesados tachos estariam escondidos nas areias das praias há pelo menos 100 anos
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