Sobram dúvidas acerca do acidente que tirou a vida de três funcionários da indústria de processamento de bílis de boi BBA (Brazilian Bile Acid), em Jacarezinho, na tarde de quarta-feira. Eles foram enterrados ontem. A empresa afirma que ninguém tinha autorização para entrar no tanque onde ocorreram as mortes.
Segundo a versão dada por testemunhas às famílias das vítimas e aos dirigentes da indústria, por volta das 14h30 de anteontem o auxiliar de produção Ênio Gonçalves de Oliveira, 24 anos, teria passado mal e caído dentro de um tanque de destilação de água. Dois colegas que ocupavam o mesmo cargo do operário, Carlos Alberto Pereira, 29 anos, e Fernando Bitencourt Campos, 33 anos, teriam entrado no reservatório para tentar salvá-lo. Todos acabaram morrendo, provavelmente por intoxicação.
O engenheiro químico da BBA, Marcelo Valente, garantiu que a substância que provocou os óbitos não foi nenhum tipo de ácido ou soda. ''Aquele tanque continha apenas água de PH neutro, usada em processos de destilação. Mas como a fábrica ficou parada entre o Natal e o Ano Novo, e aquela água contém um pouco de gordura originada da bílis bovina, é possível que tenha liberado gases decorrentes da decomposição de matéria orgânica'', argumentou.
Valente disse que todos foram pegos de surpresa pelo acidente, uma vez que, segundo ele, ninguém deu ordem para que nenhum dos funcionários entrasse no tanque. ''É uma parte totalmente automatizada, ninguém entra lá nem para fazer limpeza. Tanto que não há nenhum acesso disponível para pessoas'', asseverou. O tanque tem cerca de 5 metros de altura e capacidade de 25 mil litros. O engenheiro não soube informar a quantidade de água que havia na hora do acidente.
Conforme a reportagem da FOLHA observou no local, não havia nenhum tipo de passagem unindo o tanque ao restante do barracão, nem escadas externas de acesso. Para chegar até ele, os operários teriam que se ''pendurar'' nos tubos que o interligam aos restante do sistema. Além disso, a boca do tanque mede cerca de 50 centímetros de diâmetro. A tampa se encontrava jogada ao pé do reservatório, na manhã de ontem, junto com duas botas de operário.
Ainda de acordo com Valente, apenas Fernando trabalhava no setor de destilação. ''Os outros eram do setor de resina, não tinham autorização para estar naquele local e sabiam disso. O Ênio, aliás, era o funcionário mais experiente que eu tinha ali'', observou. Ele acrescentou que nenhum deles estava usando equipamento especial de segurança porque suas funções não exigiam. O gerente administrativo da BBA, Jarbas Chelini, explicou que o produto final da fábrica é um ácido sólido, fornecido como matéria-prima para a indústria farmacoquímica. ''Não tem nada de ácido sulfúrico, é um tipo de sal.''
A empresa fechou em luto pelas vítimas ontem e irá abrir sindicância para apurar o caso. A delegada da 12 Subdivisão Policial (SDP) de Jacarezinho, Silmara Revoredo Pereira, informou que um inquérito já foi instaurado e que aguarda o laudo da perícia. ''Temos várias perguntas a responder: como os funcionários chegaram naquele recinto, o que foram fazer ali. Vamos investigar se houve negligência, imprudência ou imperícia no caso'', adiantou.

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