Missal tem predominância alemã
Missal tem predominância alemã
Professora Maria Ceres Pereira, da Unioeste, autora da pesquisa sobre minorias linguísticasEm Missal, município da faixa do Lago de Itaipu com cerca de 10 mil habitantes, há predominância de descendentes de alemães. Em uma comunidade, a de São Pedro, na zona rural, eles são 94%, entre as 64 famílias que a compõem. Foi um campo ideal para as pesquisas da professora Maria Ceres Pereira, devido a prática bilíngue do alemão e do português. Maria Ceres permaneceu quase quatro meses na comunidade.
De algumas professoras que entrevistou, ouviu relatos de que elas próprias só falavam alemão, em suas casas, quando crianças ou jovens. Na escola, como alunas, enfrentavam dificuldades na pronúncia e principalmente na escrita, situação hoje mantida por seus alunos e até por muitas delas próprias. Trocar o b pelo p (picicleta), o t pelo d (tesculpa), supressão do erre (moreu, para morreu), são alguns dos erros típicos de descendentes ao falarem português.
Maria Ceres observou uma situação mais complicada ainda: muitas crianças iniciavam a vida escolar sem saber praticamente qualquer palavra em português. Às vezes, nem pedir água sabem, relatou uma responsável pela equipe de ensino do Município. Outra constatação foi de muitos casos de crianças que reprovaram pela dificuldade total de se expressar em português. Outra, ainda: quando o diálogo na sala de aula se torna muito difícil, as professoras até deixam de lado o português, para dar explicações às crianças.
Alunos alemães, que na escola praticamente não se manifestavam pela dificuldade no português, para não serem discriminados por colegas ao final da aula (ou na ida) seguiam em companhia de professoras conversando com elas exatamente em alemão. Maria Ceres observou que a maioria dos professores não está preparada e não tem acesso a material de apoio para lidar com a questão bilíngue. Isto é flagrante, não apenas em relação aos seus alunos alemães, mas também aos brasiguaios, frisa.
Maria Ceres também concluiu, em seus estudos em Missal, que a escola pretende ensinar aos alunos a variedade culta, ou seja, oportunizar o acesso à modalidade escrita e a uma fala calcada em tal modalidade. No entanto, ela não cumpre a pretensão satisfatoriamente e quando os professores tentam de forma inadequada corrigir os erros na pronúncia e escrita, fazem chegar às crianças o entendimento de que a língua materna é ruim e feia. E elas passam a se envergonhar da língua que usam.
O mesmo ocorre com filhos de italianos (caroça, para carroça) ou mesmo de brasileiros (nóis vai, para nós vamos). Por isso, Maria Ceres propõe, além da formação adequada dos professores, a transitividade dialetal. Ou seja, a escola aceitaria uma variedade linguista diferente da sua, vendo-a tão boa quanto a que considera adequada para o saber acadêmico; o professor transitaria da variedade da escola para a usada pela criança e sua comunidade. E se necessário para a compreensão e construção de sentido, mudaria de uma para a outra dependendo da situação.
Esta variação contribuiria inclusive para a manutenção da própria auto-estima entre as crianças. Em vários municípios onde é forte a influência de outras etnias além da brasileira, Maria Ceres Pereira constatou que não há nenhum tipo de programa que considere a diversidade linguística das comunidades. Em entrevistas e encontros que manteve com professores, eles se mostraram interessados na pesquisa sobre a questão e reconheceram que estavam despertando para uma realidade sobre a qual nunca haviam pensado. (P.P.)





