Missa homenageia cadáveres
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de abril de 1998
Mônica Kaseker 
Cadáveres utilizados para estudos de anatomia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC) foram homenageados ontem numa missa, com a participação de estudantes de Medicina e de outros cursos que utilizam as peças anatômicas. Segundo o professor José Mário Tupiná Machado, a idéia é despertar nos estudantes o respeito e a valorização da vida.
A primeira aula de anatomia é um choque para a maioria dos estudantes de Medicina e outros cursos que utilizam cadáveres para estudar o corpo humano. As reações variam desde brincadeiras até mal-estar e desmaios. Alguns estudantes ficam com repugnância de comer carne durante um período. Mas, segundo o professor José Mário Tupiná, a Medicina não seria nada hoje se não fosse o estudo dos cadáveres.
A PUC recebe de quatro a cinco cadáveres de indigentes por ano do Instituto Médico Legal, com o compromisso de sepultar os corpos depois de sua utilização. Os cadáveres são utilizados por cerca de três anos, no mínimo, conservados em formol. Segundo Tupiná, mesmo com as peças sintéticas desenvolvidas para os estudos, não é possível obter a fidelidade no aprendizado que se consegue com o corpo humano. Cada ser humano tem variações anatômicas, como uma impressão digital. É importante que o aluno conviva com isso, para não ficar bitolado, explica.
Como os cadáveres utilizados são de indigentes, a missa teve também o objetivo de fazer os estudantes refletirem sobre a importância da vida. Quando vivas estas pessoas não foram úteis, nem reconhecidas pela sociedade. Mas agora elas são imprescindíveis para a Medicina e isso precisa ser reconhecido pelos estudantes, afirma. A missa foi organizada para os estudantes que ainda não tiveram contato com os cadáveres. Cerca de mil alunos têm aulas de anatomia por ano na PUC, durante o primeiro e segundo anos dos cursos de Medicina, Fonoaudiologia, Odontologia, Psicologia e outros.
O aproveitamento de cadáveres para estudo começou antes da Idade Média. Na época, as pesquisas eram feitas clandestinamente já que eram proibidas. A partir da Idade Média os estudos passaram a ser permitidos e oficializados em centros de pesquisa e universidades. Atualmente, a maioria das pesquisas médicas é feita em vivos, através de exames como ultrassonografia, ressonância magnética e tomografia. Para técnicas cirúrgicas utilizam-se animais como cobaias.


