Missa afro une culturas e marca semana da consciência negra
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terça-feira, 24 de novembro de 1998
Célia Baroni 
No altar, a toalha branca onde pousa o crucifixo está ressaltada pela toalha imensa e colorida típica da cultura africana. Chama a atenção o tamanho da toalha que, além da mesa do altar, cobre também o chão terminando em franjas, parecendo querer alcançar a todos. Sobre o branco altar, o pão e o vinho. A seus pés, o colorido do bolo de milho, e outros alimentos - oferendas para os santos e louvor a Deus ou Oxalá.
Ungidos com água de cheiro e marcados com talco - simbolizando a resistência negra e a pureza de coração - cerca de 500 católicos e candomblecistas assistiram à missa afro-brasileira no Caic Dolly Jess Torresin (zona sul de Londrina). A celebração é feita em homenagem a Zumbi dos Palmares, comemorado em 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.
César AugustoCerca de 500 católicos e candomblecistas assistiram à missa afro-brasileira realizada no sábadoHá seis anos a missa reúne fiéis das duas religiões. Deus é pai de todos, logo somos todos irmãos. É importante estar unidos em nossos pedidos por paz e fraternidade, resume a vendedora Eunice Araújo Pereira, 35 anos. Ela fez questão de vir vestida como as escravas, para evidenciar o respeito e o carinho que tem pela cultura negra.
Católica praticante, ela garante que nunca pisou em um terreiro, mas tem amigos no Candomblé. As duas religiões são muito diferentes, mas pregam o amor e o respeito ao próximo. Este é o ponto mais importante e motivo suficiente para justificar o trabalho conjunto, diz.
A doméstica Aparecida Alves da Silva, de 72 anos, é candomblecista desde os 13 anos e católica desde que nasceu. Para ela não há contradição em praticar as duas religiões. Vestida à moda africana, ela participou da missa acompanhada dos netos. É uma forma de valorizar a cultura negra e mostrar o orgulho que temos da nossa raça, afirmou.
Essa mistura cultural e religiosa que já foi muito criticada pela Igreja Católica, ganha novos ares e significado na cidade. A missa afro-brasileira, diz o padre Dirceu Fumagalli, é antes de tudo um sinal de respeito e valorização da cultura negra. É a confraternização de duas religiões que são diferentes mas não desiguais, afirma.
Durante a missa, tudo lembrou o sofrimento dos negros escravos, sua luta pela liberdade e pelo respeito e dignidade que dura até hoje. As contribuições dos negros à cultura brasileira foram marcadas pelas músicas em ritmo de samba e reggae. No meio do ginásio de esportes, enquanto a missa era rezada, grupos de capoeira, e o grupo de teatro do Caic, vestidos de escravos, formaram rodas de apresentação. As rodas foram abraçadas por uma roda maior onde todas as raças que compõem a etnia brasileira estavam representadas.
O tronco usado para açoite dos negros na época da escravidão virou cruz estilizada. Sobre ela foram colocados balões de várias cores que eram estourados com velas no decorrer da celebração, simbolizando a libertação.


