'Missa afro celebra história do negro'
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segunda-feira, 01 de março de 1999
Maurício Borges 
Assumindo abertamente a condição de líder da raça negra no clero brasileiro, o gaúcho Gílio Felício, nascido em Santa Cruz do Sul e ordenado bispo em maio de 98, abre uma polêmica discussão entre católicos, ao celebrar missas no rito afro-brasileiro.
Como bispo auxiliar na Diocese do Bonfim, em Salvador (BA), Dom Gílio tem promovido a inculturação na Igreja Católica, valorizando os costumes e a cultura da comunidade local. Apesar das pesadas críticas que tem recebido, o bispo argumenta e justifica que a inculturação na celebração da missa é uma nova diretriz ditada pelo próprio Papa João Paulo II, como forma de animar os fiéis na busca de novas formas de evangelização.
Crítico da própria Igreja Católica, pela discriminação aos negros durante séculos, Dom Gílio - um dos seis bispos negros do Brasil -, diz que o país tem uma dívida social muito grande com os descendentes afros, que são maioria entre sua população.
Ele preside o Instituto Mariana, grupo que reúne bispos, padres e diáconos negros do Brasil, e lidera um trabalho de conscientização e valorização dos negros no país. Apesar disso, faz questão de ressaltar que essa atuação é voltada apenas para o resgate da dignidade do povo negro, e que não faz distinção em relação a raças.
Falando fluentemente seis idiomas, o bispo auxiliar de Salvador percorre o país ordenando padres negros, em celebrações afro-brasileiras. No sábado, ele esteve em Apucarana, para a ordenação do diácono Devanil Ferreira, no Santuário de São José, quando concedeu entrevista à Folha.
Na celebração da missa afro, o religioso falou sobre o papel da igreja no Brasil e no mundo, o movimento carismático e o Padre Marcelo Rossi. Seu tema preferido, além do trabalho evangelização da igreja, é a condição do negro na sociedade brasileira.
Folha Como nasceu a idéia da missa afro?
Dom Gílio A missa afro é o resultado de um esforço realizado pelo grupo de união e consciência negra diante do desafio do Concílio Vaticano II, contemplando as culturas das comunidades. O grupo procurou, então, estudar e propor um tipo de celebração dos sacramentos litúrgicos e paralitúrgicos para a igreja. Eu diria que estas celebrações tentam também responder um grande anseio que a comunidade negra tem de ver-se contemplada na ação e missão da igreja, ou no processo de evangelização.
Folha O sr. poderia descrever algumas das características da celebração, comparando-a com a missa tradicional?
Dom Gílio Na verdade, a missa é realizada no rito romano, mas ela tem as suas partes trabalhadas, ou seja, enriquecidas com os elementos das culturas afro-brasileiras.
Folha Como acontece, na prática, esta celebração?
Dom Gílio Entre outras características destas culturas, nós temos a invocação dos antepassados. Temos também o canto com ritmos característicos, depois ornamentação de espaço sagrado, com uma simbologia adequada a estas culturas afro-brasileiras, e ainda a própria temática. Eu diria que celebramos o Mistério Pascal de Cristo sublinhando todo o mistério, toda história, toda a realidade do povo negro.
Folha Há católicos que se opõem à missa afro. Que tipo de críticas o Sr. já recebeu por celebrá-la?
Dom Gílio São várias as críticas, entre elas a de que a gente estaria transportando elementos dos cultos afro-brasileiros para dentro da Igreja. Uma outra crítica seria a de que estaríamos traindo a ortodoxia da Liturgia Católica. Essas são as duas principais críticas. Só as principais, porque existem tantas outras, tantos absurdos e exageros, que nem vale a pena abordarmos isso.
Folha O diálogo com o sincretismo religioso é um caminho para a tolerância religiosa?
Dom Gílio É bom deixarmos bem claro que o sincretismo religioso não é o ideal, mas é uma realidade presente. Eu, que estou trabalhando na Bahia, percebo que esta é uma realidade muito concreta, que o povo vive. É bom lembrar que o sincretismo é resultado de uma evangelização, talvez não muito bem-feita. Os negros chegaram e foram obrigados a assumir um cristianismo que não vinha trazer para eles a liberdade. Porém, para o negro que chegava naquele processo de tráfico de escravos, o cristianismo significava a legitimação deste sistema que apresentava para ele a pior violência que se pode apresentar para o ser humano. Apesar de tudo, eles encontraram imediatamente no cristianismo uma sintonia das suas entidades religiosas, com os santos e com Jesus Cristo. Nesta descoberta eles perceberam que, não obstante a violência deste povo que os escravizava, se poderia viver ou sobreviver colocando sua espiritualidade em sintonia com o cristianismo. Daí nasce um sincretismo que, se não é o ideal, apresentou algumas coisas positivas, como um caminho de sobrevivência e de manutenção da sua identidade. E ainda um passo significativo de inculturação, que hoje a Igreja pode aproveitar para realizar seu sonho de inculturação na sua ação evangelizadora. E mais, eu diria que houve uma maneira de preservar e promover as suas culturas. Se quisermos fazer um estudo ou um aprofundamento sobre as culturas negras, nós temos que considerar o sincretismo, passando evidentemente, pelo coração das religiões afro.
Folha Na sua opinião, qual o futuro do ecumenismo no Brasil e no mundo?
Dom Gílio Eu penso que será promissor, as religiões deixarão de ser instrumentos de guerras santas e, portanto, de divisões ainda maiores, para serem agentes da construção e da paz. Cada uma valorizando seu carisma e colocando este carisma a serviço da vida e do seu ecossistema.
Folha É possível criar uma ética mínima, compartilhada entre as diferentes religiões?
Dom Gílio Perfeitamente, porque a religião honesta, como diz o Concílio Vaticano II, que busca sinceramente a Deus, carrega no seu coração as características, a mensagem, as sementes do Evangelho, e isto sendo valorizado, nós poderemos realizar este intento em que as religiões vão se respeitar.
Folha A religião pode, de alguma maneira, contribuir para que a crise econômica e social não se catalise em conflitos sociais e religiosas, como vem acontecendo em várias partes do mundo?
Dom Gílio Claro que sim. A religião apresenta em primeiro lugar uma verdade fundamental, de que todos os homens têm uma origem comum e um destino comum, que é Deus Pai, fonte inesgotável de amor e rico em misericórdia. Na medida em que as religiões forem fiéis ao seu carisma, elas vão chegar a este lugar de convergência. Percebendo que há uma origem comum, que há um pai comum, as religiões vão perceber que, não obstante aos seus carismas, é preciso respeitar o que este Pai deseja. E o que Deus mesmo quer é que as suas criaturas vivam felizes, realizando os seus dons. A religião aponta que Deus é maior, que colocou na vida dons, chama a vida para construir. A religião manda respeitar, conhecer e desenvolver, e colocar a serviço da humanidade os dons que tem. Isto é que Jesus Cristo chama de amor a Deus, amor ao próximo e amor a si mesmo. Que de uma forma ou de outra é um mandamento, uma lei, uma oração que está presente em, toda religião que merece esse nome.
Folha De maneira geral, a Igreja Católica tem cumprido seu papel moderador?
Dom Gílio Sim, apontando o mandamento primeiro, central e maior de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o mandamento do amor. A Igreja não tem apenas defendido uma teoria, mas tem nos últimos anos apresentado uma prática. Temos aí o papa fazendo um trabalho de peregrinação por este mundo, tentando falar a língua de cada nação, lembrando que todos devem superar os seus bairrismos, o seu egoísmo, para promover a cultura da solidariedade. É impressionante como João Paulo II em seus últimos documentos, nas suas últimas falas, insiste nesta ação urgente que é a solidariedade para enfrentar a cultura de morte, que movimenta todo esse mecanismo de racismo, de globalização, de exclusão de milhões de pessoas.
Folha Como o Sr. analisa o surgimento e o fortalecimento do Movimento Caristmático no Brasil?
Dom Gílio Para mim, a pessoa humana carrega dentro de si uma dimensão, que chamo de dimensão espiritual, e isto clama por manifestações. Eu penso que é resultado de uma ação e presença do Espírito Santo, essa explosão de religiosidade do movimento carismático e também de outros movimentos. O Padre Marcelo concretiza melhor essa reação, naquilo que ele coloca, em termos de canções e jeito de celebrar. As pessoas se sentem à vontade, cheias de ânimo e coragem para deixar fluir essa dimensão espiritual, que clama por uma realização. Então, eu penso que é fruto da ação e presença do Espírito Santo. Eu vejo que muitas pessoas que já estavam desistindo da igreja estão de fato voltando, porque percebem que existem nesta tradição cristã-católica, uma riqueza inestimável, que atende este anseio de louvar a Deus.
Folha O Sr. aprova essa corrente dentro da Igreja Católica? Aprova o uso da mídia por religiosos como o Padre Marcelo Rossi?
Dom Gílio Eu aprovo. Evidentemente que existem algumas objeções. Eu penso que este movimento é uma grande bênção para a Igreja. O movimento carismático tem trazido para a Igreja no mínimo três grandes coisas que ela precisa. Primeiro, a dimensão orante de sua ação no mundo. Segundo, a alegria dos filhos de Deus, a alegria de ser seguidor de Jesus Cristo, de ter a fé e a esperança. Terceiro, a espontaneidade e a proximidade do relacionamento com Deus. Vale destacar ainda a oração não só da inteligência ou da palavra, mas a oração de todo corpo. Eu diria que é a reza holística, que se expressa com tudo aquilo que a gente é. Como diz o salmo: tudo aquilo que vive e respira se torna oração, dinamismo de louvor, de suplica e de compromisso com o Deus da vida.
Folha Diz a lenda que Salvador tem 365 igrejas, uma para cada dia do ano. Como a Igreja deve se dirigir ao imenso contingente de católicos que vão à missa só uma vez por ano? Como reconquistar a confiança e ampliar a fé dos católicos não-praticantes?
Dom Gílio O Papa João Paulo II quando assumiu o seu pontificado, já com esta experiência percebida na Europa e pensando também no que ele chama de terceiro mundo, ou a Igreja do novo mundo, chama a atenção dos cristão, no sentido de que é preciso fazer uma experiência de uma nova evangelização, com novos métodos, novas expressões e novo ardor. Este é o caminho para se enfrentar esta situação e é exatamente isso que a Igreja está fazendo. No primeiro ano do triênio de preparação para o novo milênio, o Papa lembrou a importância de conhecermos amarmos e seguirmos anunciando Jesus Cristo, ontem hoje e sempre, Jesus caminho, verdade e vida. No segundo ano o tema foi o Espírito Santo, ou seja, é preciso conhecer para ser uma força proveitosa na vida dos cristãos. Agora, em 99, o papa lembra a importância do Pai, rico em misericórdia. O papa, então, apresenta diretrizes, sugestões, para que aconteça esta nova evangelização, com novos métodos, novas expressões e ardor. Por exemplo, há pouco, o papa encerrou o Sínodo dos Bispos das Américas, com conclusões excelentes. Sínodo no qual os bispos se debruçaram sobre esta realidade que há pouco você lembrou, ou seja, de fiéis que estão cansados, que vão pouco à Igreja, que não estão percebendo a importância da participação. E nós temos hoje documento que foi aprovado na última visita do papa ao México, denominado A Igreja nas Américas, que apresenta vários pontos que vão animar esta nova evangelização. Entre eles está a inculturação a partir dos indígenas e dos afro-americanos sem, evidentemente, desprezar a continuidade do respeito a outras culturas européias, asiáticas e assim por diante.
Folha Como o Sr. vê a nomeação do novo arcebispo de Salvador, dom Geraldo Magella, que atuou em Londrina e ocupava, até recentemente, um alto cargo no Vaticano, aproximando-se portanto, da visão conservadora do Papa João Paulo II?
Dom Gílio Eu não acho que haja uma preocupação substancial em tornar a igreja baiana conservadora não. Eu até penso que Dom Geraldo Magella tem realizado na congregação do culto divino e disciplina dos sacramentos ações, como secretário, dentro da direção de avanço da Igreja. Tanto que ele colaborou significativamente para que pudéssemos ter, por exemplo, o missal romano com várias adaptações às culturas brasileiras. A mais ousada é a novidade das aclamações do povo, inseridas nas orações eucarísticas. Nós sabemos o quanto a Igreja é ciosa pela liturgia e, sobretudo, quanto a liturgia eucarística. E ali Dom Geraldo colaborou decisivamente para que houvesse esse espaço de adaptação e de inculturação. É claro que ele tem toda uma formação de preservação e respeito ao patrimônio da Igreja, mas eu tenho certeza que, com o diálogo que ele teve com Dom Lucas, conhecimentos que ele tem, e com o clamor que ele percebe do povo baiano, dos ministros e dos bispos, irá nortear com muita sabedoria suas ações. Eu acredito que Dom Geraldo vai poder dar um passo adiante, vai poder fazer avançar, dentro da proposta de nova evangelização, a história da Arquidiocese de São Salvador, a primaz do Brasil.
Folha Por que há poucos sacerdotes negros no Brasil?
Dom Gílio São vários os motivos, entre os quais a reserva que a Igreja sempre fez e que, agora, graças a Deus não está fazendo mais, ao povo negro como capaz deste ministério. Houve períodos, durante os 300 anos de escravidão, e outros posteriores, em que os candidatos que se apresentavam afro-descendentes não eram bem-vindos. Ultimamente, estão crescendo as vocações, tanto é que nós estamos aqui para ordenar um jovem afro-descendente. Eu já tive oportunidade, em pouco tempo como bispo, de ter ordenado um outro, e neste ano irei ordenar sacerdotes mais três jovens negros. Ainda a igreja, condicionada pela história, tem dificuldade de investir mais na promoção vocacional entre os negros. Quando eu avalio o funcionamento pastoral vocacional de várias dioceses, conferindo como funciona lá o trabalho para motivar os jovens a serem padres, percebo que não há um investimento maior entre a população negra.
Folha Qual a sua opinião sobre a educação religiosa? Ela deve ser incorporada à escola pública, ou pertence à livre decisão de cada família?
Dom Gílio Eu penso que, evidentemente, a liberdade deve ser respeitada, mas eu acho que as escolas deveriam fazer de tudo para que o corpo discente tivesse o direito de ter o ensino religioso. Acho que as escolas não podem tirar esse direito dos estudantes. Eu percebo em muitas escolas, muito mais um descompromisso do corpo docente, do que um desinteresse dos alunos.
Folha Como o Sr. analisa as comemorações e o circo da mídia armado em torno dos 500 anos do Descobrimento? Daquela primeira missa aos dias de hoje, é possível fazer um balanço da contribuição do catolicismo brasileiro para a formação nacional?
Dom Gílio Não há como fazer uma história destes 500 anos sem nomear a presença e a atuação da Igreja, em todos os campos. A Igreja tem muito a dizer para a continuidade da história do Brasil, e acho que ela vai avançar com mais valentia na mensagem profético-transformadora, no sentido de sensibilizar os corações das autoridades competentes para que o Brasil, tão rico, não se torne tão escandaloso, no sentido de gerar e deixar acontecer tanta miséria, tanta exclusão, tanto sem-terra, sem-teto e outros tantos, que não têm o mínimo de dignidade humana.


