Se a praça Rocha Pombo é mesmo do povo, o laguinho artificial não deixará de ser. Porque o verão, ainda que chuvoso, é assim, democraticamente malvado. Neste janeiro pluviométrico, Londrina tem ar quente e roupa molhada para todos. Apesar de tanta água, a estação em nada se parece com aquelas refrescantes propagandas de cerveja, principalmente quando o dia em questão é útil. De segunda a sexta, chega um momento quase insuportável para o trabalhador que anda, transpira e se molha na rua. Um instante de ápice neurótico para o cidadão que senta e sua nas repartições. Mesmo com a chuva contínua, o calor aperta sem piedade, onipresente. E, depois de dias oculto, o sol - milagre! - resolveu ontem aparecer por alguns instantes, lá pelas 13h17. Não há nenhuma loura do Tchan por perto, a não ser aquela do cartaz. O trabalhador está em trajes civis: calça, cinto, meia, camisa, sapato, carteira, guarda-chuva e suor. Antes de enfrentar a ladeira da avenida São Paulo (o banco vai fechar logo), ele olha para a esquerda. O que o cidadão vê? Não é a loura do Tchan: é o menino camisa 10 que se refresca na água. Pela mente do trabalhador, passam sentimentos de inveja: aquele sim, que fez do laguinho a sua piscina, está feliz. Aquele sim, que enverga a camisa 10 com orgulho, gosta das coisas boas da vida - chega até a fazê-las! Aquele sim, garoto despojado de todo suor e todo horário, vibrando com um chute imaginário na água, é o bon vivant. O trabalhador lembra de um filme que assistiu há muito tempo - era ‘A Doce Vida’ -, em que Marcello Mastroianni se encontra com a loura sueca na fonte. Bons tempos. O cidadão pára, observa o fato e segue ladeira acima. O banco já vai fechar. Mas logo o sol volta para o seu refúgio gasoso. As nuvens ganham corpo, conversam com suas vozes de estômago. O trabalhador irá pra casa, antes tomando uma cerveja no bar e observando zombeteiro o cartaz da loura do Tchan. Em casa, a lista de compras, a prestação das compras de Natal, o vazamento, as goteiras na cozinha, a caçula resfriada. Já o garoto camisa 10, na praça Rocha Pombo escurecida, sente o frio do pano molhado nas costas. Onde irá passar as horas seguintes? Com a troca do claro pelo escuro, do sol quente pela noite de chuva, a inveja trocará de sinal, no sinal fechado. No bar dessa esquina, já vazio, o rádio toca o Tchan.(Paulo Briguet)

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