Minha mãe não é uma sereia
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de maio de 2009
Bia Moraes <br> Colunista da Folha 
Não é novidade que a mulher está cada vez mais presente no mercado de trabalho. A conta, porém, costuma ser alta: quase sempre cumpre-se jornada tripla, como profissional que ainda tem que arrumar tempo para cuidar da casa e dos filhos.
Porém o século XXI traz ares de renovação e até este perfil da mulher urbana já dá lugar a novas configurações. A mulher que acumula múltiplos papéis e tarefas dá lugar a gente mais espontânea e desencanada. A ideia é dar menos bola para o que a sociedade impõe e mais valor para a relação com os filhos. Uma guinada naquele padrão de mulher atual, que cumpre tudo que se espera de uma mãe exemplar e ainda dá conta de crescer na profissão, cumprir horários, administrar a casa, cozinhar, ser bonita e sexy.
Márcia Toledo, de 38 anos, é uma dessas mães da nova geração. Pais e amigos de Maria Luiza, a Malu, filha de 12 anos, curtem o jeitão de Márcia, mais conhecida como Maçã. Os colegas da garota no colégio sempre querem saber mais sobre a mãe dela. Dona de um bar, Maçã tem trabalho e horários fora do convencional.
Maçã comanda um bar pequeno e intimista, no centro velho de Curitiba, que fecha as portas no máximo a uma da madrugada. Agora tenho tempo de dormir direito. Levo e busco a Malu na escola de manhã e fico com ela de tarde, conta. Já aconteceu, porém, de Maçã tocar estabelecimento noturno, que funcionava madrugada adentro. Ela optou por privilegiar o convívio com a filha. Sou daquelas mães que ficam de olho. Presto atenção em tudo que a Malu faz.
Como toda pré-adolescente, Malu gostaria de ter mais liberdade, mas a mãe segura as rédeas. A menina está prestes a ganhar uma irmãzinha Maçã está grávida de poucos meses. Explica que a novidade ajudou a confirmar a opção pela vida mais tranquila, ao lado da filha. Pretendo dar um tempo quando nascer o bebê e voltar com calma ao trabalho, planeja.
Para Malu, ter uma mãe dona de bar, que curte rock e movimentos alternativos e não se parece em nada com uma jovem senhora não tem nada demais. Ela é mãe como qualquer outra, simplifica a garota.
Mateus Rettamozzo também não acha nada de diferente em ser filho da artista plástica Denise Roman. Ah, é minha mãe e pronto, né, diz o rapaz de 17 anos, estudante de Teatro na FAP. Mateus tem três irmãos: a mais velha, Romã, com 20 anos; Paulo, de 16; e Renata, de 14.
Denise, que não é chegada em tarefas domésticas rotineiras, é casada com o publicitário Luiz Carlos Rettamozzo há 21 anos. Ele, cada vez mais, se dedica também às artes plásticas. A casa, portanto, é um imenso ateliê, como diz Denise. Há telas, quadros, material de pintura e trabalhos por todo lado. Tudo meio espalhado mas sem estresse. Agora a gente não tem empregada nem diarista, esclarece Denise. Passo o dia fora, quando eu chego a gente decide o que vai fazer, explica, acrescentando que não existe divisão rígida de tarefas na casa.
Logo os quatro filhos deixam claro que não há divisão nenhuma acaba sobrando quase tudo para a mãezona. Lavei louça anteontem, diz Mateus. Arrumar camas e quartos? Ninguém responde. Lavar roupas? Outro silêncio. Denise ri. Viu como eu acabo fazendo tudo?, emenda. Mas há uma tarefa doméstica que os filhos tomam para si: compras no supermercado.
Ela é muito mão aberta. Acaba comprando coisa a mais, que não precisa, dizem, em coro.
Denise Roman é artista com agenda cheia. Funcionária municipal, ela dá aulas no Solar do Barão, onde tem seu atelier de gravura. Faz trabalhos por encomenda, como murais, cartazes, convites e ilustrações para livros; e ainda prepara material para a próxima exposição. O tempo que sobra, em casa, é para... desenhar e pintar mais. E paparicar a família, que respira arte e carinho.


