Militar tachado de gay contesta reforma
Guilherme Vieira
Kraw PenasIndignaçãoSade: Se eu fosse o que eles dizem que sou, como é que o Exército não me impediria de me tornar um oficial?O 1º tenente reformado do Exército Jorge Carlos Sade tem 70 anos de idade e 44 de luta. Ele tenta provar que foi afastado da vida militar por uma trama, arquitetada por oficiais superiores do quartel em que servia, o 3º Regimento de Artilharia Montada, no bairro do Boqueirão, em Curitiba.
Sade foi reformado em 1954 depois que uma junta médica o declarou incapaz definitivamente para o serviço do Exército, tendo como instrumento o laudo de um psiquiatra, o capitão-médico Rubens de Lacerda Manna, que considerou Sade fisiologicamente íntegro, fisicamente robusto, porém psicologicamente feminil.
A avaliação é contestada pelo tenente, que afirma jamais ter sido submetido a esse exame médico. Segundo ele, o exame teria sido inventado para prejudicá-lo, pois ele havia se desentendido seriamente com o então sub-comandante da unidade, coronel João da Silva Rabello. Outro fator que colocaria em xeque o resultado dessa perícia, na opinião de Sade, é que, antes dela, ele havia passado por onze juntas médicas durante sua vida militar - e nenhuma delas demonstrou qualquer desvio psicológico. Se eu fosse o que eles dizem que sou, como é que o Exército de 50 anos atrás não tomaria providências que me impedissem de me tornar um oficial?, questiona.
A advogada do tenente reformado, Sheila Bierrenbach, foi juíza militar por 15 anos, e acredita que Sade foi vítima de uma grande farsa. Por isso está solicitando junto à 5ª Região Militar uma cópia dos documentos dados ao Conselho de Justificação, para entrar com novo processo de reintegração de seu cliente às Forças Armadas.
Segundo Sheila, esta é a primeira vez que uma pessoa é posta para fora do serviço militar por ser feminil. Ela diz que a reforma só pode ocorrer em caso de doença, não sendo a prática utilizada em relação a homossexuais. Normalmente os militares procuram excluir os homossexuais colocando-os na reserva, depois de declarados incompatíveis para o serviço militar, pois não são doentes para serem reformados, disse. Oficialmente, os afastamentos são sempre justificados por outros motivos, nunca por preferência sexual, garante.
Outras irregularidades do processo referem-se à forma com que os depoimentos foram tomados. Um dos ex-soldados que depôs, e que não quis revelar sua identidade, denunciou que suas declarações foram obtidas sob pressão. Quando cheguei em Curitiba para depor passei a noite preso com mais três colegas. No dia seguinte o sub-comandante Rabello esteve na sala de interrogatório e disse que se causássemos dificuldades seríamos castigados com palmatória, afirmou.
O ex-soldado declarou que a intenção do interrogatório era difamar o Sade, com os inquiridores insinuando que ele tinha envolvimento com alguém do quartel, o que foi negado por todos.





