Sobre a mesa da cozinha, um copo com água e uma bolinha de massa de pão. Quem já fez e principalmente quem cresceu vendo a mãe ou a avó fazendo pão em casa sabe o que isso significa: a massa já foi sovada, deu forma aos pães e aguarda apenas que a bolinha suba para a borda do copo indicando o momento certo de ir para o forno. Mas a espera compensa, e logo aquele aroma característico invade a casa inteira.
Quem sente saudade desse pão recém-saído do forno pode encontrá-lo na 13 edição da Festa do Milho, que termina hoje no Distrito de Paiquerê (Zona Sul de Londrina). Provavelmente não será possível ver a manteiga derretendo sobre ele, mas pelo menos o comprador pode ter certeza de que o pão foi feito naquele dia mesmo, e ainda exala aquele exato cheiro da infância - com um suave sabor de milho, um diferencial a mais.
Cada pamonha vendida na festa também tem um toque especial. Seja a doce, salgada, com queijo ou até com pimenta (trazida de Minas Gerais, aliás), provavelmente todas terão sido feitas da mesma forma: parentes e amigos reunidos e trabalhando em conjunto. E, conforme vão ficando prontas, as iguarias são levada para serem vendidas nas barracas.
Da mesma forma, o curau, o bolo, o suco, o pudim, a queijadinha, o espetinho de bolinho com calabresa e tudo o mais que as 11 barracas só de produtos de milho oferecem são o resultado de muito trabalho, que começa antes do sol nascer e adentra a madrugada.
Na casa de Rosa Goulart, por exemplo, a família praticamente não dorme nas noites da festa. ''Não tem muito lucro no final, mas é divertido. Temos que fazer para continuar a festa'', conta Rosa, que participou de 11 das 13 edições do evento. Lá vai cebolinha na massa da pamonha, que é cozida em um fogão a lenha improvisado. ''A lenha é mais barata do que usar o gás, e fica mais gostoso'', afirma a filha Ilda, destacando que, embora a receita de pamonha seja praticamente a mesma, cada família põe seu toque especial.
Mas a tradicional Festa do Milho tem também as suas ''modernidades''. Na casa da sobrinha de Rosa, a confeiteira Sidinéia Nogueira Goulart, por exemplo, em vez do tradicional caderno manuscrito e amarelado, recorre a uma pasta onde guarda as receitas encontradas na internet, devidamente impressas. No decorrer do ano, Sidinéia vai guardando, testando e adaptando receitas novas, para fazer pratos diferentes a cada edição. Este ano, a grande novidade é o sonho de milho, além do bombocado e do bolo salgado.
Sidinéia usa ainda um ralador de milho elétrico, criado por um morador do distrito, e uma guilhotina para facilitar na hora de descascar. Para conseguir fazer várias receitas de várias iguarias ao mesmo tempo, ela conta com a ajuda de umas dez pessoas. Até os filhos dão uma mãozinha entre uma brincadeira e outra. ''Todo mundo ajuda em tudo, só a pamonha que eu faço questão de fazer. Este ano devo fazer mais de 3 mil unidades'', adianta a confeiteira.
Este ano, ela calcula que vai precisar de pelo menos 60 balaios de milho. Um produtor rural do distrito conta que, para a festa, vende cerca de 500 balaios. Para consumir tudo isso, os organizadores esperam que entre 30 e 35 mil pessoas passem pelo evento, que começou na sexta-feira. Para hoje, último dia de festa, estão marcadas apresentações artísticas diversas e um almoço típico (frango com polenta) das 11 às 15 horas, no salão paroquial. A festa termina à meia-noite. Além das 11 barracas só de derivados de milho, outras 40 barracas compõem a festa, oferecendo espetinhos, pastéis, bebidas e outros.
''É uma festa muito importante para o distrito, porque traz uma renda extra para os moradores, para pagar o IPTU, os materiais escolares e as contas. Por isso, o pessoal se empenha muito'', conta Josias Pereira da Silva, presidente da Associação de Moradores do distrito. Paiquerê tem cerca de 2,5 mil habitantes. A Festa do Milho tem apoio das secretarias municipais da Cultura, por meio do Projeto Festas Rurais, e de Agricultura e Abastecimento.

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