Milhares de crianças aguardam creche
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terça-feira, 13 de abril de 1999
Benê Bianchi 
O artigo 227 da Constituição Federal, o qual estabelece que o Estado, a sociedade e a família têm que dar prioridade absoluta à criança está longe de ser cumprido em Londrina. Um levantamento realizado pelo Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), através do projeto de extensão Atuação junto à Promotoria de Justiça das Comunidades, reacendeu a discussão sobre o número de crianças não assistidas pelas creches e que vivem em absoluta miséria em barracos espalhados pela cidade.
Dorico da SilvaDemandaSueli da Silva, que deixava seus filhos com vizinhos para poder trabalhar, hoje está desempregada e não tem o que comer. Dados apresentados durante Fórum são alarmantes: Londrina tem mais de 54 mil crianças de zero a seis anos; 24.279 vivem na chamada linha da pobreza. Prefeitura oferece só 5 mil vagasDe acordo com o levantamento, que contou com a colaboração de 46 das 57 creches instaladas na zona urbana, existem 2.454 crianças nas listas de espera por atendimento nestas unidades. Mas esse número está muito aquém da demanda, reconhece a coordenadora do trabalho e professora, Márcia Pastor.
Para concluir que os números apontados pelo levantamento não retratam a realidade, a professora cita dois dados. O primeiro é que as mães não têm o hábito de deixar o nome das crianças na lista de espera. O segundo, e incisivo, são os dados do último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O último Censo apontou que existem no município 54.549 crianças de zero a seis anos, sendo que destas, 24.279 vivem na chamada linha da pobreza - são provenientes de famílias cuja renda familiar é de até dois salários mínimos. E ainda: entre elas, 10.450 são de famílias que ganham até 1 salário mínimo. Essa é nossa demanda potencial, observa Márcia Pastor.
Cesar AugustoA professora Márcia PastorOs dados do levantamento foram apresentados ontem durante reunião ordinária do Fórum das Entidades Assistenciais. Itamar Kedma Helene Alves, presidente do Fórum e membro do conselho de Assistência Social, observa que o município, hoje, oferece cinco mil vagas em creches. Mas a demanda é realmente muito maior. Pelos dados que temos, são cerca de 14 mil crianças à espera de atendimento.
Segundo ela, no final do ano passado foi constatado, através da distribuição de cestas básicas pelo Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar), que há 14 mil crianças precisando de creches para que as mães possam trabalhar fora. Itamar acrescenta que o número deve ter saltado nos últimos meses. Tivemos um maior número de invasões de terrenos, novas famílias vindo para cá e ainda a queda do poder aquisitivo da população.
Cesar AugustoA presidente Itamar Kedma AlvesMas o problema não se resume apenas à falta de vagas, extrapolando para os problemas financeiros enfrentados pelas entidades. Segundo Itamar, o município reconhece as 5 mil vagas existentes e repassa R$ 40,00 mês por crianças com idade acima de dois anos e R$ 60,00 por criança em berçário - até dois anos. O governo federal, no entanto, admite apenas 3.800 vagas, repassando R$ 17,00 mês por cada criança atendida. Temos uma defasagem de repasse referente a 1.200 crianças.
Os participantes do Fórum discutiriam, ainda ontem, mecanismos de fazer com a lei seja cumprida. A professora Márcia Pastor obsera: A Constituição não pode virar letra morta.


