São 6 horas da manhã. As ruas ainda estão vazias. Mas uma dupla de trabalhadores já opera milagres diante das casas em Santo Antônio da Platina. A dupla vasculha os latões e sacos plásticos de lixo com uma disposição inesgotável. Não há saco que não se rompa. Não há tampa que não se abra. Tudo é possível para o casal. Tudo em nome de uma garrafa de plástico ou de um artefato de ferro. Os produtos, por mais variados que sejam, são aproveitados um a um. A dupla não se intimida. Indiferentes aos olhares dos proprietários das casas que vêem as calçadas encobertas por restos de comida e de papel higiênico. Nada os detém. Em poucos segundos transformam lixo em comida.
Em outro canto da cidade no início da manhã um grupo de crianças uniformizadas também parte para o trabalho. Não perdem um minuto. Uma a uma pegam carrinhos de sorvetes, tabuleiros com doces e seguram enxadas. O pequeno batalhão trabalha. Não perde um minuto sequer. Incrédulos também tentam realizar milagres. Não se cansam de oferecer doces e sorvetes ou de limpar quintais. O batalhão pede ajuda e, apesar do cansaço, a ladainha parece ensaiada. Os milagres se sucedem e no final do mês as famílias sobrevivem.
Num outro local, um grupo se dispersa e inicia uma romaria pela cidade. Os indivíduos se sentam próximos a praças, esquinas e igrejas e aguardam. Esticam os braços e estendem os bonés, chapéus e lenços. Esperam a piedade dos que passam. Não esmorecem. Ostentam machucados, histórias e lamentações. Querem moedas, passagens e comida. A ajuda, segundo eles, por mais ínfima que seja é importante. Não há cansaço. Alguns pedestres não olham, mas os que não estão acostumados se sensibilizam e colaboram. Os miseráveis transformam indiferença em dinheiro.
Eles, cada um a seu modo, sobrevivem em pequenos milagres. Operam, diante dos olhos de todos, transformações que não estão previstas em livros ou pergaminhos. Eles, um a um, alteram o conteúdo das coisas e transformam lixo, infância e miséria em dinheiro. Só que não serão santificados ou beatificados. Em nossos dias não há espaço para ‘‘santos’’.

mockup