Pelo menos mil famílias de baixa renda que moram em assentamentos e invasões de Londrina estão sendo acusadas de furto de energia por utilizarem ligações clandestinas para ter luz em suas moradias. A Polícia Civil abriu inquérito policial para identificar os responsáveis pelos chamados ‘‘rabichos’’.
Uma reunião ontem com representantes da Companhia Paranaense de Energia (Copel), Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), Secretaria de Ação Social, Polícia Civil e Promotoria de Defesa dos Direitos Constitucionais determinou um prazo entre 30 e 60 dias para que a situação seja resolvida. Neste período, a Copel se compromete em não desligar os ‘‘gatos’’ ou ‘‘rabichos’’, enquanto o Ministério Público vai atuar junto à prefeitura para regularização ou desocupação das invasões e ocupações não autorizadas.
Segundo o superintendente regional da Copel em Londrina, Elsson Marcos Spigolon, existem cerca de dez pontos de fraude na cidade. Em alguns casos, como na invasão do Jardim Monte Cristo, o número de ligações clandestinas chega a 600. Outras 400 estão distribuídas no Jardim União da Vitória (185 casos), ao lado do Jardim Maracanã (30), na Favela Quati (23), no fundo de vale do Conjunto Aquiles Stenghel (50), entre os conjuntos João Paz e Farid Libos (45); e em um terreno em frente à garagem da empresa de Transportes Intermunicipais de Londrina (TIL).
‘‘Estas ligações clandestinas estão em áreas onde a prefeitura não deu autorização à Copel para instalação de rede. Ou por serem irregulares, em fundos de vales ou em terrenos particulares, como é o caso do Monte Cristo. Sem esta autorização, a empresa nada pode fazer porque não há como instalar ligações temporárias’’, explicou Spigolon.
Ele disse que no começo do ano a Copel acionou a Polícia Civil para que agisse contra os ‘‘gatos’’, considerados infrações penais. Quatro inquéritos policiais foram instaurados até o momento. ‘‘A ação da polícia desencadeou esta reunião, que eu acho mais que justa. Só que não podemos esquecer que, mais do que o prejuízo financeiro que a Copel enfrenta com as ligações clandestinas – que fica entre R$ 50 mil e R$ 100 mil ao mês –, tem a questão da segurança. Esta é a nossa maior preocupação’’, afirmou.
Segundo Spigolon, os ‘‘gatos’’ põem em risco a segurança das próprias famílias que o fazem. ‘‘O risco de incêndio e curto-circuito é muito grande, já que são instalações amadoras, que não seguem especificações de segurança’’, afirmou.
Além disso, de acordo com ele, os ‘‘rabichos’’ também põem em risco a segurança técnica das instalações da rede, podendo provocar ‘‘apagões’’. ‘‘O que leva o problema a quem está regularizado e paga sua conta certinho’’, apontou. Segundo Spigolon, quem se beneficia de um ‘‘gato’’ também está perdendo. ‘‘A ligação clandestina nunca tem a qualidade de fornecimento regular de energia, o que provoca oscilações que podem queimar aparelhos elétricos com facilidade’’, disse.
O promotor de Defesa dos Direitos Constitucionais, Paulo Tavares, ressaltou a reunião era necessária porque a questão do furto de energia não se limita à esfera policial. ‘‘O problema é social e, até então, não havia um comprometimento de todos os órgãos envolvidos. Cada um tratava do caso à sua maneira’’, explicou.
Tavares avaliou que a reunião serviu para os órgãos buscarem caminhos definitivos para a solução do problema. ‘‘O Ministério Público vai tentar agilizar, junto à prefeitura, a regularização das invasões, para que todos passem a usufruir da energia de forma legal e segura, inclusive pagando por ela’’, afirmou.
Tavares citou que o caso mais complicado parece ser o da invasão do Jardim Monte Cristo, em terreno particular. ‘‘Sabemos que há uma negociação da Cohab para a compra do terreno. Por isso, pedimos o prazo maior de 60 dias’’, explicou.

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