Migração causa influência
Migração causa influência
As ondas migratórias são mais visíveis nos municípios da faixa de fronteira, onde se detectam diferenças culturais principalmente em função dos deslocamentos de brasileiros para o Paraguai. Com o passar do tempo, parte deles retorno para o Brasil. O fenômeno começou a ocorrer a partir do início dos anos 80, com o fechamento da barragem da Hidrelétrica de Itaipu, no Rio Paraná, em 1982. Ao longo do reservatório formado para alimentar as turbinas, mais de 40 mil famílias de agricultores tiveram terras alagadas.
Parte considerável do contingente migrou para o Paraguai, a procura das terras férteis e baratas, surgindo a figura do brasiguaio, que chegou a representar mais de 10% da população do país vizinho (atualmente, 5,2 milhões de habitantes). Com o passar do tempo, conflitos fundiários e entre as próprias etnias forçaram o retorno de milhares de famílias. A professora Maria Ceres Pereira, autora da pesquisa, morou sete anos em Foz do Iguaçu, o grande canal de ligação entre os dois países.
Marias Ceres interessou-se particularmente pelos reflexos do retorno dos brasiguaios no campo da educação infantil. Antes dela, em 93, a professora Celimara Strelow, de Foz do Iguaçu, já havia feito Um Estudo da Interferência do Espanhol como Primeira Língua na Aquisição do Português nas Séries, para sua especialização em Língua Materna na Unioeste. O trabalho de Celimara é um da vasta bibliografia que ajudou a orientar a professora em suas próprias pesquisas, no caso das comunidades alemães, e agora ajuda no estudo sobre os brasiguaítos.
Muitas crianças foram para o Paraguai ainda antes da idade escolar, outras nasceram no país. Algumas nunca frequentaram escolas, mas há também as que já haviam estudado no Brasil. Enquanto na casa de seus pais o idioma diuturno era o português com o tempo, passou a ser o portunhol , nas escolas tiveram que assumir o espanhol (língua oficial) e o próprio guarani, que é cultuado como expressão cultural básica da nacionalidade paraguaia.
Naquele país, pelo menos duas vezes por semana as aulas são em guarani, para que as crianças não percam suas origens. Os brasiguaios, portanto, eram obrigados a conviver com três idiomas diferentes logo nos primeiros anos de vida. No retorno para o Brasil, toda a escolaridade linguística que haviam obtido foi invalidada, com a retomada do aprendizado do português. Oralmente os problemas são menores, mas na linguagem escrita as dificuldades são imagináveis.
Nas escolas brasileiras, Maria Ceres Pereira observou que há o senso comum de que a criança deve esquecer a língua de origem isto vale para as mais diversas etnias, como a alemã e italiana, no caso do Oeste paranaense. Paralelamente, os professores não têm qualificação específica para lidar com a diversidade linguística, além do problema da diferenciação de currículos. Pelo menos para um primeiro momento da nova vida escolar dos alunos, teria que haver alguma adaptação, defende a professora.
A mesma situação ocorre com os filhos de paraguaios residentes na fronteira brasileira. Nos dois casos, alunos sofrem grande desestímulo, havendo até mesmo evasão escolar. Maria Ceres acrescenta que também não são respeitados seus direitos linguísticos, pois nos dois lados da fronteira crianças e seus pais são desencorajados de preservar a língua materna em seus lares. (P.P.)





