Josoé de CarvalhoMão na massaMichael Veigas ajuda na padaria: ‘É bom aprender a se virar sozinho. Para mim o normal é não enxergar’Seu maior prazer é estudar. Está cursando a 4ª série de uma escola municipal e quer ser advogado. Nem por isso Michael Donizeti Veigas, 12 anos, cego de nascença, deixa de lado a diversão: sobe em árvores e adora andar de bicicleta na casa da avó, onde - explica - tem espaço. Divide responsabilidades com o irmão menor, de 9 anos, ajuda a mãe em casa e ‘‘dá uma força’’ para o pai na padaria.
O importante, ressalta, é não ficar parado. Só não mexe no fogão porque os pais ainda não deixam. O pai do garoto, o comerciante Eduardo Donizeti Veigas, 35 anos, conta que não sabe a causa da cegueira do filho. ‘‘Ele nasceu prematuro de seis meses e os médicos dizem que isto pode ter provocado a perda da visão. O fato é que ele não enxerga nada desde que saiu da maternidade.’’
Para que a pessoa cega desenvolva autoconfiança e independência, é sempre melhor começar o aprendizado desde cedo, como Michael fez. Ele começou a estudar no Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos aos quatro anos. Hoje, domina o método braile de leitura. Com oito anos entrou no ensino regular onde, garante o pai, se destaca como ótimo aluno. ‘‘Ele é estudioso e esforçado. O único problema é que adora uma conversinha fora de hora e a professora reclama’’, diz. Apesar da corujice, Eduardo garante que nunca facilitou a vida de Michael. ‘‘Nossos dois filhos são tratados de forma igual. Têm suas responsabilidades e nós cobramos desempenho dos dois.’’
Warren NabucoRosa: luta pela autoconfiança
Mas foi o jeito irrequieto e a vontade de aprender sempre mais que fizeram de Michael o aluno mais jovem a se formar no curso de Orientação e Mobilidade. Hoje ele vai e volta sozinho da escola e, quando necessário, caminha sozinho pela Cidade. Mas Michael não encara o fato como uma vitória especial. ‘‘É bom aprender a se virar sozinho. Para mim o normal é não enxergar. Difícil e triste deve ser para aqueles que perdem a visão depois de grandes.’’
Segundo Rosa Maria Novi, professora de Educação Física, pedagoga e instrutora de Orientação e Mobilidade do Instituto dos Cegos, o Município não tem estatística sobre os deficientes visuais. Atualmente estudam no instituto 120 alunos, grande parte já adultos. ‘‘Mas o número de cegos na Cidade é bem maior.’’
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) contam que cerca de 1,5 milhão de brasileiros são deficientes visuais. Destes, quase 25% (350 mil) são cegos. Rosa Maria acredita que o choque da família ao se deparar com o problema e a falta de informação são os principais responsáveis pela demora na procura de centros especializados na área. As crianças costumam ser encaminhadas tardiamente para a educação.
A professora explica que somente através dos institutos o cego pode ter acesso aos conhecimentos básicos para desenvolver suas potencialidades e tornar-se independente e auto-suficiente. ‘‘Os piores inimigos de uma pessoa cega são a piedade e a atenção exageradas. As pessoas costumam tratar o cego como um incapaz e isto destrói a autoconfiança de qualquer um.’’
Rosa Maria alerta que proteger demais uma pessoa cega, fazendo por ela o que ela poderia fazer sozinha, é um engano comum. ‘‘Respeitar e amar uma pessoa não significa facilitar sua vida. Mas sim incentivar sua independência e seu desenvolvimento.’’
Para ela, família e comunidade precisam aprender a valorizar as potencialidades dos deficientes visuais. ‘‘O cego não é um incapaz. A falta de visão não tolhe sua inteligência, auto-suficiência ou capacidade de se realizar profissionalmente. Se analisarmos bem, todos temos limitações, dificuldades de aprender. Acredito que a única atividade vetada ao cego é dirigir. O resto pode ser conquistado.’’
A professora Rosa Maria reforça ainda que o isolamento - tendência inicial de quem perde a visão -, agrava a autopiedade e a idéia de limitação de vida. Implica na perda de orientação do próprio corpo e afeta, consequentemente, a relação com as outras pessoas. ‘‘Para os cegos, toda referência - embaixo, em cima, esquerda, direita - tem como ponto de partida o próprio corpo.’’
Os cegos costumam ter medo de se mover. Sem o conhecimento das técnicas de orientação e mobilidade, fatalmente parecerão desastrados e correrão sérios riscos de sofrer ferimentos, mesmo dentro de casa. A formação de conceitos do cego congênito (nascidos cegos), esclarece a professora, se dá por meio de lembranças adquiridas somente pelo uso dos sentidos remanescentes.
‘‘Cabe aos pais fazê-lo conhecer os espaços, evidenciando os ruídos de cada objeto’’. Sem incentivos, a pessoa perde a vontade de aprender, tem medo de ficar mais frustrada e se revolta. Nas crianças, a demora significa o retardamento do desenvolvimento psicomotor e emocional. ‘‘As mães precisam estimular constantemente o filho desde os primeiros dias do nascimento para que ele comece a aguçar os demais sentidos como audição, olfato e tato, que vão ter de suprir a falta da visão.’’
Uma criança cega que não recebe acompanhamento adequado tende a ficar parada, demora a aprender, não tem equilíbrio e seu desenvolvimento físico fica prejudicado. Enquanto uma criança que frequenta o instituto desde cedo pode vir a acompanhar o ensino regular, sem prejuízo do aprendizado.
A demora na procura por treinamento também resulta na rejeição ao uso da bengala. A bengala de Hoover (nome do cientista que desenvolveu o equipamento) oferece informações precisas como buracos e superfícies no solo mostrando desníveis para cima e para baixo. Ela é o único recurso capaz de garantir que o cego se movimente de forma eficiente e segura - uma das metas mais difíceis de serem alcançadas pelo deficiente visual.
Serviço: o Instituto dos Cegos fica na rua Netuno, 90, Jardim do Sol (zona oeste), telefone 327-4330.

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