Meus filhos me viam pipar
Ex-usuário de crack, Mauro, 35 anos (o nome é fictício), mostra um outro lado do funcionamento do tráfico no município. Em todos os cantos da cidade existe uma boca de drogas. O crack é muito fácil de ser encontrado e atrai facilmente as pessoas, comenta. Ele afirma ter deixado a droga há um ano, depois de passar seis meses gastando o salário e objetos da casa para conseguir algumas pedras de crack.
Casado, pais de filhos adolescentes, ele garante estar consciente do mal que provocou à família. É triste um pai ver o filho se acabar com as drogas. Pior ainda é o filho ver o pai se drogar diariamente. Eu, por causa do vício, não escolhia hora nem local para fumar o crack. E meus filhos viam isso todos os dias. Hoje me arrependo de tudo o que fiz, desabafa. Ele se declara um dos maiores combatentes do crack no município.
Mauro diz que consumia cocaína e maconha em festinhas que frequentava, mas não se considerava um usuário em potencial. Foi numa destas festas que experimentou o crack. Naquele dia não tinha a coca. Vi alguns amigos fumando o crack e resolvi experimentar. Fumei duas vezes naquela noite. A fissura provocada me levou a fumar em outras festas, até ficar totalmente dependente.
Ele descreve que, nas primeiras pipadas (gíria usada pelos usuários de crack. Significa fumar no cachimbo, marica ou latinha), parece que um espírito desce na pessoa e a faz se sentir cada vez melhor. Só que o efeito colateral vem em seguida. Todo usuário, assim que fuma uma pedrinha da droga, fica com a sensação de que derrubou alguma coisa no chão e precisa pegar de volta. É engraçado e desesperador ao mesmo tempo, enfatiza.
Pigarreando constantemente, alega que são os resquícios do crack no pulmão. Mauro explica que as cinzas que são tragadas a cada queima da droga causam um efeito pior que o cigarro para um fumante de muitos anos. Outro sintoma apontado por Mauro é a ausência de amigos. Todos fogem de você. Ficam somente aqueles que necessitam da droga.





