Meu marido morreu com tiros à queima-roupa
Dorico da SilvaTragédiaVilma Gonçalves Zanirato, que teve o marido assassinado em julho de 96: Às vezes, penso que não sou uma pessoa normal, por ter conseguido suportar tanta dorEra um domingo de sol, em julho do ano passado. Às 11h45, nosso único filho, Pedro Luiz, de 17 anos, saiu de carro para ir buscar comida para o almoço. O pai dele, Luiz Roberto, fechou o portão da garagem e ficou na frente da casa, mexendo no jardim. Eu estava na cozinha, e ouvi os gritos. Três ou quatro assaltantes, não sei ao certo, invadiram o quintal armados e empurraram o Luiz Roberto para dentro da casa. Eles estavam drogados e muito nervosos, ameaçando matar a todos se não encontrassem dinheiro e jóias.
Eu me tranquei na cozinha. Quando os bandidos estavam arrombando a porta, eu fugi para a sala da frente, fechei a porta com chave e saí para a rua em busca de ajuda dos vizinhos. Eles juntaram alguns pequenos objetos de valor e saíram da casa para fugir. Neste momento, a rua já estava cheia de pessoas à espera da polícia. Os ladrões se assustaram e tentaram levar meu marido de refém. Ele reagiu, empurrou um deles. Foi aí que eles atiraram. Foram vários tiros, à queima-roupa, perto do portão. Luiz Roberto morreu na hora.
Os assassinos fugiram rapidamente. Poucos minutos depois chegaram os policiais e o meu filho. Fiquei sob estado de choque, bloqueada, levei semanas para recuperar na memória estes poucos minutos que durou a tragédia. A revolta, o susto, o sentimento de impotência foram grandes demais. Pensei que nunca os superaria. Meu marido, de 43 anos, fora brutalmente assassinado. Nosso casamento, de 23 anos, estava precocemente terminado.
Os bandidos não foram presos, ninguém foi julgado e condenado. Tudo bem. Me apeguei a Deus e mudei a minha vida. Passei a trabalhar em nosso pequeno sítio, plantando pepinos e cogumelos em estufas. Hoje, estou melhor. Nem sei onde encontrei forças para reagir. Às vezes, penso que sou uma pessoa anormal, por ter aguentado tanta dor. Minha dor maior é pela falta que Luiz Roberto faz a meu filho. Choro escondida no quarto, ao vê-lo assistindo jogo de futebol na TV da sala sozinho, sem ter com quem discutir e conversar. Penso, mesmo, que o melhor seria terem me matado e deixado vivo o Luiz Roberto. Ele saberia cuidar melhor do Pedro. Outro fato que me causou muita tristeza foi a falta de apoio dos vizinhos, que sumiram. Acho que eles não mantêm contato por medo que eu peça dinheiro emprestado. Tudo bem. Eu não dependo deles para viver e também prefiro assim, sobreviver com o meu trabalho, de maneira independente.
Vilma Gonçalves Zanirato, dona-de-casa e produtora rural, residente no jardim Shangri-lá (zona oeste).





