Meteorologia pode ajudar na prevenção
As altas temperaturas do verão são responsáveis pelo desencadeamento de reações adversas no organismo humano. Quem pode, protege-se. As opções são variadas, mas quase todas custam dinheiro: ar condicionado, ventilador, piscina. Quem não tem condições financeiras, sofre mais.
A consequência é uma íntima relação entre o calor, a qualidade de vida nos barracos das favelas e a violência. Esta reação em cadeia foi estudada pelo geógrafo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Francisco de Assis Mendonça. Desenvolvido como tese de doutorado, o trabalho transformou-se no livro ''Clima e Criminalidade'', publicado pela Universidade.
Ele explica que o calor penetra no corpo através dos poros e dos alimentos. E que um determinado nível de temperatura resulta em desvios de comportamento, como tremor e delírios. ''O que ocorre é que o ambiente influencia na temperatura do corpo através da termoregulação interna. O nervosismo e a violência são consequências, especialmente para quem vive em casebres'', explica. A zona de conforto térmico varia entre 16 e 25 graus. Fora dessa faixa, começa o desconforto.
Os efeitos maléficos e o sofrimento com o calor aumentam com a carência alimentar de quem mora em favelas. Aliado a esses problemas, a rotina de exclusão e humilhação contribuem com a pré-disposição à violência.
Para se ter uma idéia, exemplifica Mendonça, o desconforto é semelhante a ficar preso em um engarrafamento dentro de um carro sem ar condicionado. Se os motoristas se irritam em pouco tempo, imagine quem vive assim dias e dias.
Em um casebre de quatro metros quadrados com cobertura de eternite, onde moram de quatro a seis pessoas, a sensação térmica chega a 72 graus, três vezes mais que o limite da zona de conforto humano. Com a corbertura de lona plástica, a temperatura gira em torno de 60 graus.
O estudo foi realizado em dez capitais, nas cinco regiões do País. No Sul, foram pesquisadas Curitiba e Porto Alegre. A avaliação levou em conta 30 anos de dados sobre o clima e sobre homicídios, de acordo com estatísticas do Ministério da Saúde e de delegacias. ''A violência sempre foi analisada de acordo com as causas sociais e econômicas. Mas há também a vertente ambiental. Constatamos uma correlação fortíssima entre os números da violência e o aumento da temperatura'', acrescenta.
Para o professor, as administrações poderiam e deveriam usar essas informações para definir políticas públicas. Um exemplo é a construção de parques e a preservação de áreas verdes, em especial em lugares pobres, o que combina dois fatores anti-criminalidade: temperatura agradável e lazer. ''Os dados meteorológicos também poderiam ser usados para promover ações de prevenção contra a criminalidade''.(F.R.F.)





