As famílias que conseguiram ficar na Ferrovila não sabem se comemoram ou se ficam preocupadas com as mensalidades que vão pagar pela compra dos terrenos. Em alguns casos, o valor pago mensalmente chega a R$ 90,00, durante 25 anos, reajustado pela inflação. Metade das famílias que invadiram a área, há quase sete anos, está se mudando para outros loteamentos populares como o Bairro Novo, onde os valores das prestações são mais baixos.
Na região da Cooperativa Central, que reúne moradores de uma quadra que fica ao lado da Avenida Kennedy, no bairro Portão, falta apenas fechar o acordo negociado com a prefeitura pela presidente da associação, Requina de Melo. Depois do despejo de oito famílias, num outro trecho da Ferrovila bem próximo de lá, os moradores ficaram com medo de perder tudo e aceitaram o acordo para a relocação.
A Cooperativa Central ficou conhecida por apresentar a maior resistência à negociação em toda a Ferrovila, que tem 14 quilômetros de extensão. Por ser o trecho mais valorizado, entre as avenidas Kennedy e Marechal Floriano, as famílias teriam que pagar muito para ficar lá e muitas preferiram sair.
Uma das últimas moradoras daquele trecho, Ester de Oliveira, diz que faltou união no grupo que invadiu a área. Ela preferiu pagar R$ 66,00 por mês, durante dez anos, para se mudar para o Bairro Novo, com a possibilidade de comprar mais um lote para revender e, com o dinheiro, construir uma casa nova.
Ester de Oliveira conta que as vizinhas já se mudaram e, apesar da distância do Bairro Novo, se acostumaram bem no local. Do total de 1,7 mil famílias que ocuparam a Ferrovila, quase 700 já foram relocadas e 200 ainda estão se mudando. Vão ficar na área 854 famílias.
O vigilante José Francisco Batista, de 37 anos, teve sorte. A casa dele fica quase no limite do trecho que está sendo desocupado. Ele lembra que soube da ocupação e veio com a mulher e três filhos para se instalar num barraco de lona. A tensão do início, com o risco do despejo, a falta de água, luz e esgoto, tudo passou e agora ele comemora a conquista do lote. A quarta filha, Célica, nasceu na Ferrovila há quatro anos. O número de crianças, ao longo do que foi uma linha de trem, chama a atenção. Pelo menos 400 delas nasceram na Ferrovila nos últimos sete anos.
No outro extremo da Ferrovila, perto da Cidade Industrial, as famílias que podem já estão reformando as casas e pagando pela compra dos lotes. Edilamar de Oliveira Alves, de 38 anos, diz que vende cachorro-quente, faz faxina e costura para ajudar o marido a pagar as melhorias na casa. Em março, ela sonha em ver tudo pronto. Pagando uma mensalidade de R$ 90,00 de um financiamento de 25 anos, Edilamar se considera uma privilegiada. A vizinha, dona Maria, encontra mais dificuldades para pagar o terreno, em que construiu dois barracos onde moram 11 pessoas.

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