Mestre prega a tradição da capoeira como dança
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quinta-feira, 10 de outubro de 2002
Renê Muller<BR>Reportagem Local 
O semblante sereno de Mestre João Pequeno contemplará hoje mais algumas dezenas de londrinenses dando seus primeiros passos ou aprimorando sua arte na capoeira angola. Com certeza, lançará um sorriso. Afinal, a vida do mestre nascido João Pereira dos Santos há 85 anos em Serrinha, na Bahia foi toda dedicada a dança que veio da África e que hoje é praticada no Brasil e no exterior.
Disseminar a manifestação é a tarefa que João Pequeno herdou de Vicente Pereira Pastinha, o Mestre Pastinha. O discípulo lembra com saudade do professor, ciente de que tem cumprido a missão com louvor. ''Ele me disse 'João, tome conta disto, agora não viverei mais em corpo, mas em espírito sobreviverei com a capoeira'', recorda. Filho de vaqueiro, João andou de fazenda em fazenda. Dançando um pouco como os antepassados que acabaram batizando a manifestação de origem africana.
''Os escravos moravam na senzala, e lá não podiam dançar'', ensina. Se quisessem, tinham que ir para o mato. O senhor perguntava onde os sumidos estavam, e a turma respondia: ''na capoeira''. No continente africano, a dança era celebrada entre os homens, para a escolha das mulheres que atingiam a idade de casar. Ao vencedor, cabia o privilégio de escolher a preferida.
E é assim que Mestre João Pequeno prega a capoeira angola. Nada de ''arte marcial''. ''Sempre foi dança. Você pega uma menina para dançar e bate nela?'', argumenta. ''Agora, se o outro rapaz que está na roda for violento, dá para dar uns empurrãozinhos''. Depois de percorrer inúmeros países, e outras tantas localidades do Brasil, ele ainda prega a pureza da manifestação.
Vivendo em Salvador e tocando o Centro Esportivo de Capoeira Angola, herdado de Mestre Pastinha, mantém o fôlego para as inúmeras viagens. Em Londrina, fica por três dias ministrando a 1 Oficina de Capoeira Angola. A promoção ocorre hoje, amanhã e domingo no ginásio do Centro de Educação Física da UEL. Depois de um pouquinho de descanso, já tem agenda cheia. Que o diga os assistentes de João Pequeno, Everaldo Vieira dos Santos, o ''Zoínho'', e Jurandir Souza dos Santos.
Ontem, ao chegarem à cidade, a preocupação era com o remédio que ''Mãezinha'', a mulher do mestre, tinha mandado para o marido tomar. ''Há uns meses atrás ele esteve bem doente, mas ficamos admirados com a rapidez da recuperação'', lembra ''Zoínho''. João Pequeno, como lenda da capoeira que é, diz que o tempo não amainou em nada o amor pela atividade. ''Não vou morrer nunca. E sempre dançarei a capoeira'', promete.


