Mesmo com passarela, pedestres se arriscam
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quinta-feira, 05 de março de 2009
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Curitiba - O segurança Alcídes Dias, 68 anos, para no acostamento, espera o fluxo de carros diminuir um pouco e sai em disparada. No caminho, encontra um conhecido e o cumprimenta, antes de terminar a travessia da Rodovia do Café (BR-277, ligando Curitiba ao norte do Estado).
A Rodonorte, concessionária que administra o trecho, informa que 25 mil carros passam pela rodovia por dia. Poucos metros distante do ponto onde Dias atravessou a BR-277, uma passarela permanece vazia.
''Não tenho um pingo de medo de atravessar aqui'', dispara o segurança, tão rápido como os carros que cortam o rodovia. ''Para atravessar, é preciso ter atenção, então nunca atravesso na passarela'', ensina. Como ele, muitos moradores do Jardim Guarani, entre Curitiba e Campo Largo, na região metropolitana, arriscam-se entre os carros para evitar ter de subir a rampa para cruzar de um lado para o outro. ''Aqui, todo o pessoal atravessa pela rodovia mesmo'', afirma o segurança.
Para justificar o arriscado ato, ele diz que um dos motivos é a pressa. Segundo Dias, pela rodovia é muito mais rápido. Outro problema é a distância do ponto de ônibus que liga o bairro ao Centro de Curitiba. Os moradores do Jardim Guarani reclamam que o ponto foi instalado muito longe da passarela. É o que diz a porteira Andréa Gonçalves de Siqueira, 33 anos. ''Acho que deviam colocar a grade para evitar a passagem e transferir o ponto para mais perto da passarela'', opina ela, que diz sempre atravessar pela passarela.
Mesmo com um local próprio para a realização da travessia, o desrespeito continua e o resultado vem em acidentes. Em 2008, a Rodonorte registrou 58 atropelamentos nos 480 quilômetros administrados pela concessionária (entre Curitiba e Apucarana e Ponta Grossa e o interior do Estado de São Paulo). Desses, 17 aconteceram a menos de 100 metros de uma passarela. Sete pessoas morreram em pontos próximos a áreas de passarela -ou seja, mortes que poderiam ser evitadas. Uma desses acidentes fatais aconteceu nas proximidades do Parque Barigui.
Já no trecho da BR-277, onde a FOLHA conversou com os moradores que continuam se arriscando na rodovia, 21 atropelamentos aconteceram no local, segundo a Rodonorte. Destes, oito pessoas morreram. Cinco foram próximos as passarelas. Nos primeiros 20 dias de 2009, três pessoas já morreram atropeladas neste trecho da BR-277. Sempre nas proximidades das passarelas.
No total, a Rodonorte construiu 11 passarelas, como determinado no contrato com o Departamento de Estradas e Rodagem (DER). Além disso, um trabalho periódico é desenvolvido pela concessionária na tentativa de evitar acidentes. O programa ''Eu Uso Passarela'' é realizado em três frentes de conscientização. Na primeira, aborda os moradores em áreas próximas das passagens para lembrar a importância destas. Em um segundo momento, realiza palestras e teatros com crianças de escolas na região da rodovia. Para completar, promove concursos de desenhos com as crianças reforçando os benefícios da passarela.
Nos pontos onde a população cruza por entre os carros não existe a grade para impedir que isso aconteça. De acordo com assessoria da Rodonorte, a cerca é dispositivo necessário para obrigar as pessoas a usarem a passarela, mas não é um componente obrigatório da passagem.
Para Ozir Jacomel, Chefe da 2 Delegacia de São José dos Pinhais da Polícia Rodoviária Federal (PRF), as pessoas sabem dos perigos de se atravessar pela rodovia, mas mesmo assim se arriscam. Para ele, motivos como não gastar tempo e não subir as rampas determinam a escolha. ''As pessoas não consideram a situação de risco que estão passando'', diz. De acordo com Jacomel, a imprudência transparece nos locais onde os acidentes acontecem: sempre nos perímetros urbanos perto de passarelas.
Para tentar diminuir as mortes nos trechos de rodovia dentro das cidades, Jacomel diz que a polícia vai intensificar o programa de palestras em escolas, conscientizando crianças da importância da passagem. ''A redução do número de acidentes gerada pela passarela podia ser zero se a população colaborasse'', diz Jacomel.


