Célia Polesel
Patrícia An drade é uma garota de 16 anos que leva uma vida nor mal de adoles cente, fre quenta o cole gial, tem mui tas amigas e sai aos finais de semana. A diferença é que Patrícia é responsável por uma das maiores manifestações de fé de Londrina: quatro vezes por mês milhares de pessoas se reúnem em sua casa, na Rua Bento Gonçalves da Silva, 389, Jardim Santa Madalena (Zona Oeste), para rezar e ver as manifestações de Nossa Senhora.
Neusa Andrade, mãe de Patrícia, conta que a menina começou a conversar com a Santa aos 13 anos. ‘‘Nós nunca fomos de religião e um dia nos convidaram para ver uma coroação na igreja do conjunto Semíramis. A partir daí minha filha começou a ver e falar com Nossa Senhora.’’
Segundo Neusa, nos primeiros meses os terços eram rezados na própria igreja e sem nenhuma divulgação, mas depois a Santa pediu que as orações fossem feitas na própria casa e que as pessoas fossem chamadas à conversão.
‘‘Nossa vida mudou para melhor depois que a Patrícia começou a ter essas visões. Antes só pensávamos em nós mesmos, mas agora sabemos que o melhor é quando estamos com Deus.’’ Ela conta que a filha sempre foi muita humana, sempre procurou ajudar o próximo e hoje sua maior preocupação é evangelizar. As orações comandadas por Patrícia reúnem milhares de pessoas. Para auxiliar na organização, existe um equipe de ‘‘servos’’ com cerca de 50 pessoas. Além deles há um grupo de cerca de 90 pessoas que fazem intercessão (orações), mesmo que não estejam no local, para que os pedidos feitos sejam atendidos.
Neusa conta que em 1997 Nossa Senhora pediu uma gruta, mas a família não tinha como construir. ‘‘Então a Santa disse que nós não deveríamos nos preocupar que ela proveria. Aí um senhor bem velhinho veio nas orações e disse que construiria a gruta por um preço bem baixo. Um funcionário da prefeitura, que também frequenta as orações, doou as pedras. Estava faltando só o dinheiro. Um dia nós abrimos a caixa do correio e havia um envelope anônimo contendo o dinheiro exato para a construção.’’
Segundo Neusa, Nossa Senhora agora está pedindo uma capela. Os terrenos que ficam ao lado da casa já foram conseguidos para a construção. Um terreno foi comprado pela equipe de servos que conseguiu o dinheiro através de promoções e doações. O outro por pessoas que não participam diretamente da equipe. Ela conta que todo o material de construção foi doado assim que as pessoas ficaram sabendo que a Santa havia pedido uma capela.
O projeto arquitetônico e acústico da capela já está pronto e pago. ‘‘Só falta a autorização de dom Albano Cavallin para a construção. Nós queremos que a capela seja do povo, por isso queremos registrar o terreno e a construção no nome da Arquidiocese.’’
Isabela Báccaro, secretária do setor de comunicação da Arquidiocese, informou que dom Albano nomeou uma comissão com três padres para acompanhar o caso de Patrícia, fazendo um processo de verificação. Enquanto este processo não estiver terminado, não será autorizada a construção da capela.
Um dos padres que acompanham o caso de Patrícia conversou com a Folha mas prefere não se identificar enquanto o fenômeno não estiver bem documentado e esclarecido. Segundo ele, a garota é uma adolescente normal, mas no momento em que supostamente está conversando com Nossa Senhora ela se transforma.
Durante as orações foram gravadas algumas fitas de vídeo, o padre mostrou as gravações e explicou que a menina entra em êxtase nestes momentos. ‘‘Você pode notar que há uma transformação facial nos momentos que ela diz estar recebendo as mensagens de Nossa Senhora.’’
O sacerdote conta que Patrícia não entende muito bem algumas palavras que ouve nas mensagens porque não conhece o catecismo. Mas segundo ele, as mensagens que ela passa são características da fé cristã.
‘‘Nas verificações feitas até agora em nenhum momento ouvimos ou tivemos informação de que a menina pregasse contra a fé cristã. A Igreja está analisando e verificando os fatos. Mas é preciso ter respeito e senso crítico. Em quaisquer movimentos populares, por mais estranhos que sejam, tenhamos prudência para respeitar o sentimento das pessoas. Prudência que pode perfeitamente estar acompanhada de senso crítico, o que não significa credulidade e ingenuidade. Respeito e senso crítico são coisas que devem perdurar por longo tempo até que se prove a verdade ou não do que se está verificando.’’
Patrícia também é acompanhada por um grupo de psicólogas. Uma delas concordou em ser entrevistada, mas como o padre também para não ser identificada. Ela afirmou que Patrícia é uma adolescente normal que faz tudo o que uma garota de sua idade também faz. ‘‘Nosso trabalho é na linha da conversação. Ela não tem comprometimento psicológico nenhum. Queremos justamente garantir o desenvolvimento normal dela, por causa do grande assédio que ela sofre.’’
A psicóloga conta que o acompanhamento é feito na própria casa. ‘‘Patrícia é uma garota amorosa, amena, que está tendo uma maturidade natural, está desabrochando normalmente. A única transformação é quando ela está em êxtase. Nestes momentos se vê que realmente há uma relação com o divino.’’
Ela explica que quem comparece à casa de Patrícia está ali para rezar e, quando as orações terminam, leva uma vida normal. ‘‘O ser humano precisa de equilíbrio, não se pode privilegiar apenas um lado da vida. É preciso cuidar do corpo e da alma. Nas tardes de orações existe uma unidade entre as pessoas, não há sensacionalismo, nem fanatismo. E também não há nenhum comércio por parte das pessoas envolvidas.’’Patrícia Andrade vai à escola, tem amigas e passeia nos finais de semana como qualquer adolescente da mesma idade que a dela
Josoé de CarvalhoÊxtasePatrícia, em momento de comunicação: segundo devotos, expressão do rosto se transforma, mesmo quando sorriJosoé de CarvalhoNormalidadePatrícia, em seu cotidiano: brincadeiras, amizades, estudo, passeios e sorriso comuns aos dos adolescentes

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