Dorico da SilvaDe primeira viagemMenores de rua saem para um passeio de ônibus pela Cidade: exercendo, por um dia, o direito ao lazerMesmo quando o mês é de férias, eles raramente têm uma chance de lazer. A manhã de ontem foi especial para 17 meninos e meninas de 8 a 18 anos que vivem nas duas casas-abrigo da Prefeitura de Londrina. Acompanhados de sete educadores da Secretaria de Ação Social, eles se acomodaram em quatro peruas do projeto Conheça Londrina nas Férias, da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel), e saíram para visitar os principais pontos turísticos da Cidade.
Mostrar Londrina para menores que viveram nas ruas pode parecer, à primeira vista, uma proposta estranha. Mas o passeio agradou a todas as crianças e monitores. O ‘‘tour’’ pela Cidade onde a maioria nasceu - mas onde nem sempre encontram uma boa acolhida - começou com meia hora de atraso, por volta das 9 horas. A demora aconteceu justamente pelo desconhecimento turístico da Cidade. Os monitores desconheciam o Museu de Arte de Londrina (antiga rodoviária) e acabaram esperando pelos veículos no Museu Histórico Padre Carlos Weiss.
Dorico da SilvaVisitantesNo parque Arthur Thomas: animação
A visita ao primeiro ponto do programa foi feita a pé, na praça Rocha Pombo, entre os dois museus. Um susto para a menina Sandra Pires Cardoso, 11 anos. ‘‘Ué! Mas a gente não vai sair de carro?’, decepcionou-se. O local, famoso pela fama de ponto de viciados e desocupados, é mais do que conhecido pelos garotos. ‘‘Eu já pulei desta ponte umas três vezes’’, orgulha-se um dos meninos.
As duas casas-abrigo da Prefeitura, a Chácara Igapó e a Casa do Bom Samaritano, recebem menores que estão em situação de risco. A maioria dos meninos atendidos pelas entidades, hoje, foram tirados das ruas e agora tentam se libertar do maior problema, a dependência das drogas. A psicóloga do Programa de Atenção à Criança, Silvely Maria Vilela Gazola Garcia, diz que a proposta do passeio partiu da equipe que trabalha com os menores. ‘‘Nós sempre procuramos inserir os meninos em atividades que todo mundo faz. Eles têm os mesmos direitos dos outros.’’
No início do passeio, os veículos percorreram pontos centrais muito conhecidos pelos menores. Supercreche, terreno baldio onde está a figueira - local de menores de rua -, posto de saúde José Belinati, antigo Cadeião. ‘‘Eu já tive aí umas três vezes’’, conta Rosemiro Martins, 16 anos.
Dorico da SilvaPraça vizinhaNa Rocha Pombo: lugar conhecido
O grupo fez a primeira parada no Terminal Rodoviário de Londrina, para conhecer e receber explicações sobre o Relógio do Sol. Igor Marcelo Moreira de Jesus, 17 anos, vibrou: ‘‘Quando eu ficava na rua, passava por aqui e não sabia do relógio. Agora, já sei ver as horas’’, comemora.
Frente aos olhos atentos de todos, os guias do projeto Conheça Londrina foram despejando informações. A rodoviária tem 400 cadeiras para os passageiros que aguardam a viagem, foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e construída no local da antiga zona do meretrício de Londrina. A platéia ficou confusa. ‘‘O que é zona do meretrício?’’, perguntaram em coro. ‘‘É ponto de prostituição’’, respondeu, incrédulo, o guia. ‘‘Ah, isso a gente conhece’’, avisaram as crianças.
Fora da região central, começaram a aparecer os locais desconhecidos pelos meninos e meninas. O primeiro, o marco zero da Cidade, localizado em um bosque, em frente da empresa Anderson Clayton (área central). Depois, o prédio da mesquita Rei Faiçal, no bairro Aeroporto (zona leste). ‘‘Que coisa mais linda’’, admirou Wesley de Góes Campos, 16 anos.
No Aeroporto, uma parada rápida, fora do programa. Os guias sugeriram mostrar às crianças o avião que fez a primeira viagem entre Londrina e Orlando (Estados Unidos). O avião trouxe, ontem pela manhã, um grupo de londrinenses que viajou ao Disneyworld. Se tudo era festa para o pessoal que chegava dos Estados Unidos, a alegria do grupo que ‘‘viajava’’ por Londrina não ficava atrás. Os ex-meninos de rua nem se preocuparam muito em dividir o saguão do Aeroporto com jovens de realidade completamente diferentes, carregando bagagens cheias de equipamentos eletrônicos, bonecas da Minie e vestindo as manjadas camisetas do Hard Rock Cafe. Os mais preocupados eram os educadores. Silvely Garcia comenta que sentiu o preconceito da sociedade quando levou dois meninos para passear no Catuaí Shopping. ‘‘Os meninos queriam até andar atrás de nós, para não causar problema.’’
A parada mais demorada do grupo aconteceu no parque Arthur Thomas, zona sul de Londrina. Igor Moreira de Jesus ainda não conhecia o parque. ‘‘É um lugar lindo! Tem que ser preservado’’, comenta. Jhonatan Wesley de Moraes, 13 anos, conta que gostou de todos os pontos visitados e ‘‘adorou’’ o programa. ‘‘Eu nunca tinha feito um passeio com toda a turma.’’
Rosemiro Martins admite que nunca tinha tido uma oportunidade de lazer como esta. ‘‘Podia ter todo o dia que estava muito bom para mim.’’

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