Menores atrás das grades
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terça-feira, 27 de maio de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem local 
Eles chegam algemados, passam por exame médico e depois recebem um ''kit'' com toalha, cobertor, colchão, pasta e escova de dentes, caneca e uniforme. No instante seguinte, estão numa cela. A rotina do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) é igualzinha a de um presídio comum. A diferença é a idade dos presos. De cabeça raspada, um menino de 12 anos enfia a cara nas grades e tenta conseguir atenção da promotora Edina de Paula, da Vara da Infância e Juventude: ''Tia, pelo amor de Deus, me dá uma chance. Eu não quero mais ficar aqui''.
A visita da promotora é rotina. Todos os dias chegam novos adolescentes. A maioria apreendida por roubo, quase todos envolvidos com drogas. Alguns assaltantes, outros homicidas. O tempo máximo de permanência no Ciaadi, de acordo com a lei, é de 45 dias. Este é o prazo que a promotoria tem para concluir o processo. Depois disso, eles são liberados ou encaminhados para o Educandário São Francisco de Assis, em Curitiba, onde podem permanecer, no máximo, por três anos. ''Tem gente que acha 45 dias pouco. Essas pessoas não conhecem isso aqui'', diz Edina.
Enquanto fala, a promotora analisa uma lista com os nomes de 10 sentenciados que esperam uma vaga para o Educandário. Um deles está há 178 dias no Ciaadi. Outros quatro esperam há 103 dias. ''Esse problema é crônico. O Educandário tem capacidade para 120 adolescentes e atualmente tem 220 internos'', informa. Apesar disso, a promotora garante que nunca liberou nenhum menor por falta de vaga: ''Aqui em Londrina isso não existe. Já ficamos com 62 adolescentes aqui dentro, quando a capacidade é 36. Tenho certeza do que estou dizendo porque quem libera os menores sou eu'', afirma.
A rotina dos adolescentes no Ciaadi começa às 7 horas. É preciso limpar as celas e os corredores. As celas são cubículos de concreto com grades de ferro. As camas são espaços deixados na parede para colocar os colchões. O ambiente é gelado. Numa cela, dois meninos de 14 anos dormem juntos para dividir os cobertores: ''Tia, arruma mais um cobertor prá gente? Não dá pra aguentar o frio de noite'', diz o menor.
Pão com manteiga, uma caneca de chá ou leite no café da manhã. Todas as refeições são feitas dentro das celas; marmitex no almoço e jantar e um pão com leite antes de dormir, às 21 horas. Segundo os meninos, a pior coisa é a luta diária para matar o tempo. Os adolescentes têm aulas (numa cela) de manhã e frequentam algumas oficinas de terapia ocupacional durante à tarde. Fazem tapetes e trabalhos artesanais. Quem não quiser assistir às aulas ou participar das oficinas, fica na cela. ''A gente vai, né? Qualquer coisa é melhor do que ficar aqui sozinho'', garante um dos internos.
''O Ciaadi não recupera ninguém'', afirma Edina. ''Mas as prisões para adultos também não. O que está errado é o nosso modelo. Ele cria uma identidade de delinquente, só isso. Na realidade, os meninos não estão aqui prá serem educados e sim para serem punidos. Eles prejudicaram a sociedade e ela merece uma resposta. Infelizmente, essa é a única resposta que a gente tem'', lamenta.
No fim do corredor, sozinho numa cela, C. segura uma foto. O cheiro de urina é muito forte. O chão da cela está molhado. Hoje é o 18º aniversário dele. C. é filho de traficantes, viu o pai ser assassinado quando tinha 12 anos. Ele conhece bem o Ciaadi já passou por ali 12 vezes nos últimos anos. Ao ser cumprimentado pela promotora, arrisca um pedido: ''Me dá uma chance, doutora''. Sem chance. Ele é suspeito de homicídio e se a culpa ficar comprovada no processo, vai para o Educandário.


