Emerson Cervi
De Curitiba
O menor J.C.P., 17 anos, denunciou quatro policiais militares da Companhia de Choque de Curitiba por tortura e agressão. Ele tem queimaduras de segundo e terceiro graus nas mãos. Médicos do setor de queimados do Hospital Evangélico dizem que a recuperação pode demorar até 6 meses.
Os ferimentos foram provocados por volta das 16 horas no dia 5 de janeiro, quando uma equipe da Ronda Ostensiva de Natureza Especial (Rone) abordou J.C.P. e outros três menores para uma revista de rotina. O menor diz que os policiais o obrigaram a ficar com as mãos sobre o capô quente da viatura por mais de vinte minutos. ‘‘Eles estavam rodando desde o início da manhã com aquele carro e colocaram minhas mãos bem na área onde fica o motor’’, conta.
O menor diz que só foi liberado pelos policiais depois que uma mulher passou pelo local e presenciou a ‘‘revista’’ de rotina. ‘‘Quando deixaram eu sair, não sentia mais os braços e a pele das minhas mãos ficou grudada no carro.’’ A revista aconteceu nas proximidades da rua Eduardo Pinto da Rocha, próximo a uma favela no Alto Boqueirão. O menor já prestou depoimento no Inquérito Policial Militar (IPM) aberto pelo comando da PM para apurar a denúncia. Ele também reconheceu um dos agressores.
A mulher que viu a agressão também depôs e confirmou as informações prestadas por J.C.P. As outras três pessoas revistadas pela polícia não querem se envolver na denúncia com medo de represálias. Um deles já esteve preso por 6 meses em uma instituição correicional por consumo de drogas. O Conselho Tutelar do Boqueirão pretende apresentar nos próximos dias uma denúncia ao Ministério Público por abuso de autoridade.
O comandante do policiamento da capital e região metropolitana de Curitiba, coronel Darci Dalmas, disse ontem que os quatro policiais da Rone estão afastados do trabalho nas ruas. Ele acredita que até o final de janeiro o inquérito administrativo será concluído. ‘‘Depois, os resultados da investigação serão apresentados à justiça militar’’, adiantou.
Segundo o coronel, esse tipo de denúncia não é comum. ‘‘Nossos homens são treinados para agir com rigor nas abordagens, o que evita revides de possíveis marginais, mas esse caso é preocupante. Creio que tenha sido um deslize dos policiais, eles não sabiam que estava tão quente’’, disse.
Os conselheiros tutelares do Boqueirão vão pedir indenização ao Estado por danos causados à família do menor. No dia da agressão, J.C.P. estava procurando emprego. Ele é o filho mais velho de Maria Camargo Preto e tem quatro irmãos menores. ‘‘Eu estou desempregada e agora que meu filho mais velho não pode trabalhar, tenho que pedir para os dois menores venderem milho verde na rua para poder comprar pão e leite’’, lamenta Maria, que mora em um barraco alugado na favela do Alto Boqueirão.Policiais são acusados de ter obrigado o menor a ficar com as mãos sobre o capô da viatura, o que teria provocado queimaduras de 2º e 3º graus
José Suassuna‘ROTINA’J.C.P. foi agredido por policiais numa abordagem da Rone: 20 minutos com as mãos sobre o capô quente

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