O adolescente J.O.T., 15 anos, baleado anteontem pela Polícia Militar de Londrina continua internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa. O hospital confirmou que o risco de o menor fica paraplégico é grande. O adolescente foi baleado durante uma abordagem policial para identificar quatro rapazes que teriam assaltado uma casa no Jardim Maracanã, na noite de quarta-feira. Polícia Militar e testemunhas tem versões divergentes para o caso.
A PM alega que o adolescente foi abordado na rua e que, depois de preso e dentro de uma viatura descaracterizada, teria tentado atirar contra o policial que dirigia o carro. Entretanto, a polícia não soube explicar como o rapaz foi preso sem ser revistado, já que, segundo a PM, ele sacou a arma quando estava dentro do carro, no banco de trás.
Testemunhas afirmam que o menor foi preso na sua casa e que foi espancado e algemado por três policiais que o colocaram na viatura. A dona de casa Maria Grego, 45 anos, prestou depoimento à Polícia Civil anteontem e confirmou a versão. Ontem, duas outras testemunhas, Fabiana e Rose dos Santos, ambas de 21 anos, também confimaram à Folha que viram o menor sair de sua casa, no Jardim Maracanã, algemado pelos policiais militares da P2 (serviço reservado da Polícia Militar).
Segundo Rose, ela viu quando o menor saiu da casa, empurrado pelos policiais, que não usavam fardas. ‘‘Eles pararam no quintal, o J. vestiu uma camisa e, em seguida, algemaram ele com as mãos para trás. Ele não tinha onde esconder uma arma’’, afirmou. A dona de casa Maria Grego disse que, enquanto estava na delegacia, outros policiais estiveram em sua casa e arrebentaram portas e janelas, além de diversos móveis. ‘‘Deve ter sido para tentar me intimidar, já que eu vi tudo o que aconteceu’’, disse.
O delegado-adjunto João Eduardo Carulla, que ouviu Maria Grego, disse que quem vai apurar o caso é a Polícia Militar. Segundo ele, a Polícia Civil também vai investigar, anexando os fatos apurados ao inquérito que investiga os roubos do qual o menor é suspeito. Carulla disse já mandou periciar a viatura usada pela PM e que vai convocar as outras testemunhas para prestar depoimentos.
O menor foi submetido a duas cirurgias. Segundo o ortopedista Maurício Guerra, J.O.T foi atingido por apenas um projétil, que entrou pelo abdomen, transpassou o fígado, rim e medula óssea, se alojando no cotovelo do braço esquerdo, que foi fraturado. O rim precisou ser retirado. O neurocirurgião Wander Miguel Tamburus, que também o atendeu, disse que por enquanto não pode afirmar com certeza se o garoto terá ou não condições de voltar a andar.
A Folha tentou entrar em contato com a vítima do suposto roubo praticado pelo menor, Cleide Alves de Almeida, que não quis dar entrevista. Ela disse que está sendo ameaçada pela família do garoto. ‘‘Eles estão me acusando pelo menino ter ficado paralítico’’, justificou.
A arma que a Polícia Militar diz que estava com o menor é um revólver Rossi, calibre 22, que está com a Polícia Civil. A mãe do menor, Ana Otávio, disse que o adolescente nunca teve arma e que o revólver é uma ‘‘armação da polícia’’.

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