Números coletados em Londrina apontam que a recuperação de adolescentes infratores é um caminho árduo e, muitas vezes, mal sucedido. No Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi), única instituição da cidade que oferece cumprimento de pena em regime fechado para menores, o índice de reincidência no crime, entre os internos, chegou a 35% no ano passado. Traduzindo a porcentagem, 115 dos 325 adolescentes que passaram pelo Ciaadi, em 2003, voltaram. Para muitos desses jovens, as chances de sair da criminalidade acabam cedo. Boa parte dos 15 menores assassinados em Londrina, nos últimos quatro meses, tinha passagem pela polícia ou envolvimento com drogas.
Diante das estatísticas, fica a dúvida: o que existe por trás da recuperação, ou não, de um adolescente? Foi o que a reportagem da Folha perguntou a autoridades da área e a dois menores que, tudo indica, estão em processo de reabilitação. Escola, trabalho e reestruturação da família foram fatores destacados como fundamentais. Mas a vontade de se reabilitar também foi apontada como fator determinante.
''Fui eu que escolhi sair dessa vida. Ficava só na 'nóia' dia e noite. Comecei com 5 anos. Usei cola, tinner, maconha, crack. Se eu pedia dinheiro na rua e não davam, roubava. Fui umas 10 vezes pro Ciaadi. Quando tava com uns 16 anos pensei 'o que eu quero da minha vida?''', revela o adolescente Paulo (nome fictício), 17. Ele é um dos 50 jovens atendidos pelo Espaço Vida, instituição vinculada à Secretaria Municipal de Saúde de Londrina e responsável pelo tratamento de dependentes químicos em grande parte, menores infratores.
Desde criança, Paulo passou por várias instituições, sem que nenhum tratamento dispensado surtisse efeito. Dono de um histórico comum a muitos adolescentes infratores, Paulo teve a vida marcada por pobreza e violência, o mais velho de 11 irmãos. ''Meu pai bebia muito, batia e a gente ficava revoltado. Uma vez trabalhei um tempão de servente de pedreiro para comprar uma tevê e ele 'sumiu' com ela pra pagar bebida'', recorda.
A terapeuta ocupacional do Espaço Vida, Ilka Elorza, lembra que, quando o garoto chegou ao local, ''não aceitava nada, só comia, dormia e fazia bagunça''. Ali, foi atendido por uma equipe padrão nesse tipo de trabalho: assistente social, enfermeira e psicólogos, além da terapeuta. O que fez a diferença, segundo ele mesmo, foi o desejo de mudar. ''Cansei. Resolvi que queria conseguir as coisas com meu trabalho: um lar, um carro. Agora tô sossegado'', relata.
Atualmente o adolescente cumpre oito horas de atividades diárias no Espaço Vida, cursa o supletivo e dorme em uma casa-abrigo. ''Mudou da água para o vinho'', observa Ilka.

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